Capítulo II
Cada objeto encontrado nas escavações do Cais do Valongo conta uma história de resistência, fé e humanidade em meio ao horror da escravidão
Durante as escavações arqueológicas entre 2011 e 2012, milhares de objetos foram encontrados nas camadas do Cais do Valongo. Cada peça é um testemunho material da vida, da fé e da resistência das pessoas escravizadas.
Amuletos, búzios, anéis, moedas, cachimbos e objetos pessoais revelam práticas religiosas, estratégias de sobrevivência e a preservação de tradições africanas mesmo nas condições mais adversas.
Contas de vidro e sementes usadas em colares ritualísticos. Cada cor tinha significado espiritual ligado a orixás específicos nas religiões africanas.
Os cachimbos de caulim recuperados nas escavações do Cais do Valongo / Cais da Imperatriz e suas imediações foram atribuídos, na sua quase totalidade, ao século XIX. Foram utilizados e descartados no entorno e nas proximidades do cais, região portuária caracterizada por grande diversidade étnica.
Conchas marinhas usadas no jogo de búzios (merindilogun), prática divinatória fundamental nas religiões de matriz africana.
Sementes escondidas e trazidas da África. Apesar de serem forçados a dar voltas na "árvore do esquecimento", trouxeram sua memória em sementes.
Botões de roupas, fivelas e pequenos objetos metálicos. Vestígios materiais do cotidiano nos armazéns e mercado de escravos.
Fragmentos ósseos e dentários encontrados no solo. Evidências das vidas perdidas e do cemitério dos Pretos Novos na região.
Os objetos religiosos mostram como as pessoas escravizadas mantiveram vivas suas crenças e práticas, resistindo à imposição cultural.
Cada objeto pessoal revela a humanidade que o sistema escravista tentava apagar — identidades, memórias, afetos.
Os artefatos são pontes materiais entre África e Brasil, mantendo viva a memória das origens e da diáspora.