APRESENTAÇÃO
A necessidade de compreender a evolução e as tendências atuais das
relações entre Estado e sociedade é parte do processo de aperfeiçoamento da Justiça
Federal, na medida em que Justiça é uma instância do Estado.
Dentro desse enfoque, o Centro de Estudos Judiciários encomendou a
presente monografia do professor Elimar Nascimento, ora publicada como volume 4 da Série
Monografias do CEJ. Com esta publicação, o CEJ espera contribuir para o desenvolvimento
do potencial criativo e intelectual de magistrados e servidores, bem como para o
intercâmbio de informações e para a mudança de mentalidade no que se refere à visão
do trabalho jurídico.
O professor Elimar Pinheiro do Nascimento, do Departamento de Sociologia
da Universidade de Brasília, com doutorado na Universidade Renée Descartes, de Paris, e
pós-doutorado na E'cole dos Hautes Etudes en Sciences Sociales, atualmente exerce
o cargo de Secretário de Ciência e Tecnologia no governo do Distrito Federal.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho trata dos padrões de relacionamento entre Estado e
sociedade no Brasil, construídos nos anos recentes, mais precisamente nos últimos vinte
anos. Complementando-se com cenários construídos para o Brasil no ano 2000, responde a
uma demanda do Centro de Estudos Judiciários (CEJ) do Conselho de Justiça Federal,
preocupado em compreender o contexto em que as relações políticas e institucionais se
desenvolveram no país. Escrito expressamente para essa instituição, em sua maior parte
aproveita algumas conferências ou breves textos escritos anteriormente, porém sempre
revistos.
Na perseguição ao objetivo maior deste texto, enfatizam-se duas
formas de abordagem. Do ponto de vista do Estado, a da governabilidade, e do ponto de
vista da sociedade, a da participação na esfera pública. Antes que uma redução do
processo real, trata-se de uma escolha analítica, qualificação necessária a uma
abordagem mais consistente.
A participação política ganhou relevância no passado imediato, em
1984, com a campanha das Diretas Já e com as eleições estaduais de 1986, nas
quais o PMDB foi vitorioso em todos os estados, exceto Sergipe. Assim, naquele momento, o
partido político que assumiu, em meados da década de 1970, o papel de resistência ao
regime militar, configurou-se, na década seguinte, como o instrumento das mudanças
sociais reclamadas em múltiplas ocasiões pretéritas, o que estimulou novas
mobilizações populares. Não se quer com isso afirmar que esse papel tenha sido
efetivamente exercido. Como é do conhecimento público, ocorreu justamente o contrário,
o papel renovador do PMDB esgotou-se sem que as mudanças tenham-se efetivado.
Para os setores sociais subalternos, a questão da participação
revestiu-se de importância ímpar, vistas as esperanças que as eleições (indiretas) de
1985, para a Presidência, e as já citadas de 1986, representaram. Com essas eleições,
inaugurava-se uma segunda fase da transição política, o período de democratização do
país, entendido como a fase de definição das bases do novo regime democrático.
A expectativa de grande parte de analistas e intelectuais políticos
também se centrou no processo participativo. Particularmente porque a democracia passou,
pouco a pouco, a ser entendida não mais como um simples conjunto de regras de
participação formal na vida pública, mas antes como um jogo de construção de
direitos. Ora, se a garantia dos direitos exige quase que, exclusivamente, instituições
estabelecidas e reconhecidas em suas funções de observância da lei, a criação de
direitos exige um ethos participativo, além de mecanismos eficientes de mudança.
É indispensável, nessas ocasiões, que os diversos grupos sociais, que compõem uma
determinada sociedade, possam exprimir seus interesses e reconhecê-los nas decisões
governamentais e nos arranjos institucionais.
A legitimidade das decisões governamentais de quaisquer dos poderes
constitucionais repousa, necessariamente, no reconhecimento da justeza das regras em que
as mesmas se sustentam e na crença da observância das mesmas pelos decisores. Embora
não se possa, no Brasil, partilhar plenamente da afirmação de Luhmann (1980) de que
não é tanto o resultado que interessa, mas as regras do jogo que são obedecidas, o
exercício da governabilidade deve tomar em consideração tanto o funcionamento das
regras, quanto a possibilidade mínima de resposta às demandas sociais. A natureza ainda
em formação da sociedade brasileira, com suas desigualdades colossais e suas
instituições em amadurecimento, obriga a que tanto a obediência às regras quanto a
obtenção de resultados sejam imperativos complementares e igualmente relevantes na
prática decisória dos governantes.
Dessa forma, a democracia é entendida como um processo, ou seja, como
a gestação contínua do jogo político de interesses, em que os segmentos majoritários,
gradativamente, compõem-se, fazem-se ouvir e modificam-se. A concretização desse
processo faz-se por meio de uma participação crescente dos diversos grupos sociais e do
estabelecimento de regras institucionais de consenso relativo e provisório.
Nem a observância das regras, nem a obtenção de resultados foram
plenamente obtidas em nossa história política recente, colocando a questão da
governabilidade no centro dos debates políticos.
Na perspectiva acima assinalada, o presente texto busca situar a
questão da participação e da governabilidade como pilares fundantes das relações
Estado-sociedade, no processo de transição e consolidação democrática no Brasil. Para
tal, divide-se em seis capítulos.
O primeiro define, de forma sucinta, alguns conceitos considerados
primordiais para uma abordagem mais consistente da questão, para que a mesma não fique
prisioneira do fatual ou do empírico mais imediato. Trata-se dos conceitos de Estado,
Regime, Governo, Administração Pública, além de sociedades civil e política. Assim,
pretende-se propor uma matriz analítica do problema.
No segundo capítulo, aproveitando-se notas de uma aula no doutorado
sobre América Latina e Caribe da UnB/Flacso, são analisadas as especificidades do Estado
no Brasil. A sua importância reside, em grande parte, no fato de este ocupar, mesmo com
as mudanças recentes, um papel central no desenvolvimento brasileiro neste século. Neste
capítulo, tenta-se chamar atenção para as raízes dessa problemática, enfatizando-se
três momentos marcantes na nossa formação estatal: o do Estado como expressão de um
sujeito externo, como instrumento de dominação de uma categoria social e, finalmente,
como uma relação de forças entre agentes sócio-econômicos definidos.
As relações Estado e sociedade, abordadas no prisma da crise dos anos
70/80, é o objeto do terceiro capítulo, publicado originalmente em versão modificada na
revista Sociedade e Estado, em 1989. As origens e as características centrais da
transição brasileira são recuperadas de forma sintética, distinguindo-se o projeto dos
estrategistas militares do processo real marcado pela longevidade e conservadorismo.
Os novos padrões de relacionamento entre o Estado e as diversas
classes e grupos sociais são desenhados no quarto capítulo, que sintetiza resultado de
pesquisa realizada em 1990, com financiamento do CNPq. Busca-se chamar a atenção do
leitor para o fato de que esses padrões nunca foram nem uniformes nem monolíticos, tendo
uma historicidade própria, com três grandes momentos no período Republicano. A
hipótese central é que se caminha para um quarto momento. A crise estatal, crise de
regime político, entendida como uma crise simultaneamente de recursos, de conhecimento e
de administração é o grande obstáculo à produção desse quarto momento em nossa
história.
O quinto capítulo nasce da revisita a notas de uma conferência
realizada na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris, em 1993, sobre
as relações entre política e sociedade no Brasil. Se a crise do Estado / crise do
regime político foi o grande objeto do capítulo precedente, as sociedades civil e
política são examinadas, neste capítulo, sob o mesmo ângulo de preocupação: definir
seus processos constituintes.
O provável desdobramento futuro, desenhado na síntese de três
macrocenários nacionais, é o objeto do último capítulo, que antecede a conclusão
final. Parte-se de algumas premissas simples em torno das possibilidades reais de o país
superar não apenas sua crise econômica aqui apenas subentendida mas
particularmente as crises estatais e sociais que a marcam igualmente. Esses
macrocenários, desenhados na Macroplan, originalmente em 1987 e revistos em seminários
de especialistas em 1989, 1991 e 1994, foram utilizados, de forma levemente modificada,
por algumas grandes empresas nacionais. Aqui se apresenta uma versão livre e sintética
dos mesmos.
De certa forma, cada capítulo enfrenta a questão central do texto de
forma distinta, agregando novos aspectos ao enfoque. Nesse sentido, há uma permanente ida
e vinda na análise do desenvolvimento político e social, em que o quadro econômico é
apenas um pano de fundo, nunca esquecido, mas jamais plenamente abordado.
Escrito em 1994, quando as eleições se desenrolavam no país, o texto
foi revisto brevemente em 1995. Os passos iniciais do governo Fernando Henrique Cardoso,
por serem extremamentes conjunturais, não chegaram a ser objeto de análise propriamente
dita, mas apenas de alguns poucos e sucintos comentários. Os fatos são ainda muito
recentes e "aquecidos" para uma abordagem mais isenta. De toda forma, os
cenários revistos consideram as características fundamentais da aliança política
vitoriosa, seus limites e potencialidades.
A conclusão serve apenas para sintetizar os três padrões de
relacionamento Estado e sociedade que se conheceu no período, ou seja, entre a década de
70 e a presente. Com ênfase no aspecto social.
Uma linguagem pouco técnica, ou acadêmica, escolhida expressamente,
atravessa e constrói o texto em seu conjunto. A finalidade, evidente, é de ampliar o
universo de seus possíveis leitores, permitindo a incorporação dos não-especialistas,
sem, no entanto, fugir ao rigor da exposição.
1. O Corpo Conceitual
A linguagem costumeira não distingue os conceitos de Estado, Governo e
Administração Pública, omitindo normalmente o de Regime Político. Embora essa
linguagem nos permita um mútuo entendimento, sua precariedade acarreta dois problemas: de
um lado, possibilita freqüentes mal-entendidos, de outro, dificulta o entendimento de
certos fenômenos políticos. Por essa razão, torna-se indispensável começar por
definir brevemente esses conceitos, chaves para a questão objeto deste estudo.
A concepção do Estado envolve uma ampla literatura e profundas
divergências entre as diversas correntes teóricas que se têm ocupado da questão
(Bobbio, 1980; Burdeau, 1970 e Leclercg, 1981). Independentemente dessas vertentes,
algumas características do Estado moderno podem e devem ser retidas porque relativamente
consensuais:
a) trata-se de uma emanação particular à sociedade capitalista; com
isso se quer afirmar, por um lado, que não se pode identificar o Estado moderno com os
ordenamentos políticos existentes em sociedades pregressas como a dos astecas, romanos ou
assírios, por exemplo, e, por outro lado, quer-se afirmar que ele tem uma relação
estreita com a economia de mercado em sua forma generalizada, particularmente a partir do
século XIX (Lipietz, 1986);
b) o poder estatal assume a forma da impessoalidade, ou seja, não se
pode identificá-lo com pessoas ou grupos familiares e mesmo grupos sociais mais amplos,
revestindo-se da condição de um lugar que pode, teoricamente, ser ocupado por qualquer
dos integrantes da sociedade;
c) sua base jurídica é a lei unívoca e universal, ocorrendo, pela
primeira vez, um ordenamento político que pode proclamar a igualdade de seus integrantes
independentemente do sexo, da raça, da crença religiosa e das riquezas possuídas
(Bobbio, 1986);
d) os poderes constituintes do Estado são concebidos como distintos,
separados e independentes, um com as funções próprias de produzir as leis, outro,
executá-las, e, finalmente, um terceiro julgá-las, (Althusser, 1974);
e) o poder estatal é exercido por instituições administrativas
concebidas e organizadas com base em conceitos de racionalidade burocrática (Weber,
1964);
f) a legitimidade do poder estatal reside no reconhecimento de seus
cidadãos, concebidos como a fonte última do poder (soberano), e se exerce, por essa
mesma razão, por meio de seus legítimos representantes (Nascimento, 1987).
Evidentemente que não se pode esquecer, de um lado, o caráter
abstrato dessas assertivas, portanto não plenamente realizáveis e, de outro, que a sua
materialização sofre distorções relevantes nos países de pouco desenvolvimento
capitalista como são os países latino-americanos. Em conseqüência, no Brasil, esses
postulados teóricos são apenas em parte aplicáveis.
Em primeiro lugar, porque o processo de reconhecimento do ordenamento
político superior junto à população se fez com relativo vagar, em face do peso das
economias agroexportadoras prevalecentes até meados do século. Essas, articuladas para
fora, bloqueavam a constituição de um mercado nacional de capital e força de trabalho.
Em segundo lugar, pela estrutura social resultante de um capitalismo
hipertardio, de passado colonial, profundamente desigual, excluindo da órbita da
política a maior parte da população. Apenas recentemente o processo de cidadania se
amplia em meio a resistências diversas. Aliás, não se pode esquecer que até 1988, os
analfabetos não votavam, enquanto quase um terço da população brasileira se encontra,
ainda hoje, nessa situação.
Em terceiro, e último lugar, para ficar apenas nas especificidades
mais contundentes, por causa da privatização dos aparelhos de Estado ou da pouca
distinção entre o público e o privado, que constitui um componente ainda marcante desse
ordenamento político. Componente, diga-se de passagem, que coloca em risco as
possibilidades da racionalidade do sistema e limita sua expansão e possibilidade de
modernização efetiva (Freire, 1978; Cardoso, 1975).
Dessa forma, adota-se no presente estudo a concepção de que o Estado
é o espaço maior de ordenamento político, onde se busca a racionalidade (sempre
inatingível) do sistema capitalista, por meio de um conjunto, relativamente
diversificado, de instituições (Engels, 1966; Burdeau, 1970; Carnoy, 1990).
Regime Político, em conceituação quase clássica, é o
"conjunto das instituições que regulam a luta pelo poder e o seu exercício, bem
como a prática e os valores que animam tais instituições" (Bobbio, 1986).
Uma outra definição, mais próxima da concepção socialista do
século XIX, não fugiria ao essencial da questão: "um conjunto específico de
controles formalmente organizados e estabelecidos pelas classes dominantes para ordenar o
poder político e a convivência social de uma comunidade em função de um sistema
ideológico básico" (Bottomore, 1988).
O que se revelaria distinto nessas duas conceituações é o fato de
essa última vertente demarcar que as regras do jogo da ascensão e do exercício do poder
são estabelecidas por um determinado grupo social em função de seus interesses.
Permanecem, no entanto, as características básicas, de que são regras reconhecidas
socialmente de ascensão e exercício do poder. Regras aqui não apenas no sentido
jurídico, pois é de reconhecimento público que essas ultrapassam, em grande parte, o
quadro da legalidade jurídica para ingressar no espaço específico da legitimidade
política.
A importância da conceituação do Regime Político encontra-se, entre
outros, no fato de que ela diz do grau de participação política possível e desejada (e
desejável) em uma determinada sociedade, assim como das formas que o Estado tem para
realizar suas funções, particularmente a de legitimação.
Como, em nenhuma sociedade moderna, observa-se uma conformidade
expontânea às normas sobre as quais se funda a sua própria existência e reprodução,
ela é dotada de um conjunto de órgãos que tem o atributo, reconhecido, de impor as
regras e tomar as decisões necessárias. Esse conjunto de órgãos não é outro que o Governo.
Assim, governar significa "controlar, comandar, dirigir, conduzir" e,
normalmente, o termo é utilizado para o grupo de pessoas que ocupa os postos centrais nos
Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo.
No Brasil, normalmente, como os grupos que ascendem aos altos postos do
Poder Executivo pertencem a um partido (ou a vários), diz-se que também o partido ou os
partidos (e seus representantes no parlamento) formam o governo. Distinguindo-se daqueles
outros partidos que, presentes no Parlamento ou não, não têm acesso aos cargos de
comando da Administração Pública. É claro que o senso comum, em suas deformações,
reflete elementos de realidade. Em nosso país, o Governo normalmente articula os Poderes
Executivo e Legislativo de forma ambígua e, por isso mesmo, promíscua, sem clara
distinção entre os seus respectivos papéis e atribuições. Assentado nessa premissa,
aliás, é que o Poder Executivo é o maior legislador, sobretudo após a adoção do
instituto das medidas provisórias.
Entende-se, por outro lado, que Administração Pública
significa "o conjunto de atividades diretamente destinadas à execução concreta das
tarefas ou incumbências consideradas de interesse público ou comum, numa coletividade ou
numa organização estatal" (Bobbio, 1986).
Observe-se que dois atributos qualificam essas atividades.
Em primeiro lugar, o fato de serem as atividades administrativas
dependentes ou subordinadas a outras (e por essas controladas), as quais especificam os
fins e objetivos a atingir. Em segundo lugar, o de serem executivas, no duplo sentido de
que acatam uma escolha ou decisão anterior, e de que dão continuidade à decisão,
intervindo para a consecução de interesses e objetivos já por ela fixados. Na sua
evolução, porém, a Administração Pública veio a ser identificada não apenas com um
conjunto de funções próprias àquelas atividades, como também com uma organização ou
estrutura. Mais precisamente, com um "complexo de estruturas" que traça a
característica maior dos Estados modernos e contemporâneos e que comporta um pessoal
escolhido por sua competência técnica, contratado profissionalmente e em caráter
permanente (às vezes, não sob o ponto de vista legal, mas fatual). Dessa forma, a
Administração Pública assume as feições de uma ponte no relacionamento
Estado-sociedade. Nesse sentido, a Administração Pública não se confunde,
rigorosamente, com o Governo, nem com o Regime Político e muito menos com o Estado,
embora estes não possam dela prescindir em sua existência material ou manifestação
operativa (Mathias e Salama, 1975).
A Administração Pública refere-se a uma realidade menos abrangente
que o Estado, recobre apenas parcialmente o que se denomina de Regime Político e se situa
sempre em nível de subordinação de princípio às instituições governamentais. A
ação administrativa é, assim, essencialmente orientada para a conquista dos meios
indispensáveis à conservação e reforço do poder estatal e ao desempenho de seu papel.
E, de igual maneira, para possibilitar o exercício do poder governamental. O que não
significa a inexistência de um poder administrativo, embora concebido tecnicamente como
"um poder delegado".
A noção de "soberania delegada" da Administração Pública
não deve conduzir ao entendimento de um aparato puramente técnico e relativamente
neutro. Cada vez mais se reconhece a existência de um papel político desempenhado, de
fato, pelas estruturas burocráticas, o que coloca na ordem do dia o problema da
separação e da articulação das esferas política e administrativa. Com o crescimento
do corpo burocrático, além das garantias que lhes são oferecidas pela lei e o poder que
tem acumulado em face da "classe política" (poder de conhecimento dos
procedimentos), as suas relações com o poder político constituído tem-se agravado,
criando, em alguns lugares e momentos, as condições para a prática do que Motta (1987)
chamou de "irresponsabilidade de cada um e da organização como um todo".
Ademais, o reconhecimento de que a concepção original da Administração Pública como
atuando imparcialmente e cumprindo o mandato da lei não corresponde à realidade, estando
ela organizada de tal maneira que se torna facilmente permeável a interferências de
agentes "estranhos" (empresários, por exemplo).
2. ESTADO NO BRASIL:
ESPECIFICIDADE E HISTÓRIA (1500-1990)
Aqui, como na África e na Europa, o Estado nasceu sob o signo da
violência. Aqui, como na África, porém à diferença da Europa, a violência foi algo
exterior. Essa distinção, tão simples quanto óbvia, apresenta conseqüências
marcantes, dentre outros aspectos, quanto à legitimidade do poder estatal, entre o
continente latino-americano e europeu. Algumas dessas conseqüências merecem ser
assinaladas, como pano de fundo de nossa reflexão. Os contrastes permitem, melhor que
outros procedimentos, perceber a natureza de nossas características.
A primeira dessas diferenças diz respeito aos processos de formação
do Estado e da nação no contexto europeu que, embora múltiplos, são reunidos por
similitudes que os fazem parecer, sob determinado ponto de vista, como únicos.
Similitudes ou simbioses que possibilitam emergir, no pensamento social europeu, uma
teoria contratualista como fundadora e explicadora do Estado moderno. Contrato entre
cidadãos "livres e iguais", em favor desses mesmos cidadãos, o Estado
capitalista surge na Europa como organização asseguradora de direitos individuais,
garantidora do bem-comum, protetora de uma fronteira e continuadora de uma tradição
(Barret-Kriegel, 1979).
Embora pareça que a ruptura se situe na raiz imediata da fundação do
Estado na Europa, trata-se de uma efetiva aparência, pois a fundação do Estado moderno
naquelas plagas representou, antes que tudo, uma continuidade, menos do príncipe do que
do povo nascente, o "Terceiro Estado". Pois, se a revolução quebra com a
herança do príncipe, repõe a legitimidade do povo. Na verdade, pode-se afirmar que, se
existe ruptura, ela se faz para manter o predomínio da racionalidade ou das "leis
naturais". Afinal, a gestação do Estado europeu se fez por intermédio de um
processo de diferenciação (Badie e Birnaum, 1979).
Pouco importa a forma do argumento, são sempre formas diferenciadas de
um mesmo conteúdo. Dessa maneira, tradição e modernidade formam um contínuo,
sobrevivem, coexistem e reproduzem-se num único movimento (Mayer, 1987). A ruptura é
sempre uma ferida aberta a ser apressadamente cicatrizada. As revoluções inglesa (séc.
XVII), francesa (séc. XVIII) e alemã (séc. XIX) saltam aos nossos olhos como exemplos
reluzentes, ímpares, mas não insólitos, pois não estão sós. Elas, como as guerras,
servem apenas para lançar as bases de uma sociedade mais igualitária e mais solidária.
Nada de similar ocorre na América Latina. O Estado nos vem dos mares,
colado aos canhões e caravelas portuguesas e espanholas. É introduzido em solo estranho
como violência e pela violência. Antes que expressão do forjar de uma nação, surge
como destruidor de nações. Antes que revestido da legitimidade do povo, despido de
qualquer legitimidade que não sua efetividade coativa. Surge, assim, como predomínio,
opressão, sem qualquer subterfúgio. Porém, mesmo que violento, não apenas destruidor,
mas simultaneamente produtor: de súditos, de sujeições e de obediências. As relações
governantes-governados despontam não como decorrência de uma civilidade, mas de um
delito.
Assim, enquanto a violência é endógena à formação do estado
europeu, ela é, na América Latina, absolutamente estranha e exterior.
A externa característica do Estado nas sociedades latino-americanas,
acima aventada, que se traduz pela violência, deve-se inicialmente ao caráter dominador
da presença portuguesa e espanhola nas novas terras. Às resistências dos nativos
(quando perseguidos e submetidos ao trabalho forçado), os invasores nada têm a oferecer,
salvo a força de suas armas. E quando a necessidade de mão-de-obra cresce, aumenta
concomitantemente o uso da força. Inicialmente sobre os próprios nativos, nas famosas
incursões de caça aos indígenas, e posteriormente na caça, transporte e escravização
dos nativos da África. A escravidão, aliás, é a expressão clara e visível desse
espaço da violência que os Estados colonizadores estabelecem nas suas colônias e que
permanece como um pesado legado colonial por todo o período imperial e republicano,
chegando aos dias de hoje. Afinal, não está ausente nessa tradição a forma
"selvagem" como se tratam os silvícolas deste país.
As diferenças acima assinaladas entre os dois continentes, não podem
ser interpretadas como afirmativas da existência de um processo violento na gestação do
Estado na América Latina que não teria ocorrido na Europa. O que seria, no mínimo,
ingênuo. Antes se quer sublinhar que, num espaço, essa violência assume foros de
legitimidade porque endógena que são inexistentes no outro. Diferença que
poderá contribuir para a explicação das distinções quanto às formas que a
legitimidade assume num e noutro espaço. E, com elas, as formas mesmas do Estado.
Naquele momento da história latino-americana e brasileira, o Estado
não pode ser compreendido senão na concepção subjetivista do poder. O Estado,
nessa concepção, é a simples expressão da capacidade de domínio, de obtenção de
obediência de um grupo sobre outro, de uma nação sobre outra. O Estado surge, assim,
como simples expressão da qualidade intrínseca de um grupo social, sua força bélica,
explicada como superioridade inscrita na natureza da diferença entre os povos, permitindo
a um intelectual como Voltaire, em pleno Século das Luzes, classificar os nativos do
Brasil como ocupantes da escala mais inferior da humanidade.
O Estado na América Latina, não custa insistir, não é uma criação
própria da sociedade. No caso do Brasil, o Estado é a expressão impositiva da vontade
estatal da Coroa Portuguesa em seu processo de expansão mercantil. Nasce, assim, como uma
entidade mercantil, geradora da expansão das formas de produção de mercadorias; parte
integrante, portanto, do desenvolvimento das condições primeiras de produção do
capitalismo como modo de produção, o que se dará plenamente quatro séculos depois
(Furtado, 1959).
A distinção assinalada entre os casos europeu e latino-americano não
passou despercebida aos cronistas sociais do século XVIII, quando a nação não passava
de um sonho na cabeça de uns poucos e ousados intelectuais. Nem aos precursores das
Ciências Sociais no Brasil entre finais do século passado e inícios deste. Em meados do
presente século, foi objeto de profundas discussões, quando então se evidenciou, com
maior clareza, que o Estado não apenas foi "exterior" ao país, mas criador da
própria sociedade, ocupando, dessa forma, uma posição inversa àquela tida nas plagas
européias.
A exterioridade do Estado na América Latina tem, assim, uma dupla
significação. A primeira é que ele se porta como um instrumento eficaz para introduzir
a produção de mercadorias em espaços anteriormente estranhos a essa forma de
produção. A segunda é que se porta como gerador de formas de socialização e
relações sociais que não são inerentes aos povos e nações dominados.
O Estado é criador de classes sociais no Brasil e na América Latina.
As cidades nascem como espaços administrativos da ocupação de novas terras, do domínio
de novos homens, da extração de novas riquezas. Enfim, da exploração da força de
trabalho nas fazendas, engenhos e minas. Nesses espaços urbanos, surgem os serviços, os
comércios e, posteriormente, as indústrias. Com essas atividades, evidentemente, advêm
classes e grupos sociais anteriormente inexistentes. Mesmo no campo, grande parte das
classes e grupos sociais conforma-se sob a influência do poder estatal, que assegura as
condições propícias à sua produção.
A estrutura social dos futuros países-latino americanos assume, pelas
razões acima, feições particulares e distintas da sociedade européia, onde o Estado
pode assumir a forma de "expressão dos interesses gerais", ou ser assim
concebido. No continente latino-americano, isso não é possível porque aqui a cidadania
não preexiste ao Estado capitalista. Aqui, a sociedade não é conformada, em seus
primórdios, como um grande conjunto de indivíduos revestido de direitos, mas antes como
um grande conjunto de indivíduos despido de quaisquer direitos, alguns duplamente
estranhos às tradições e ao social. Por essa razão, é que a luta pela implantação
da cidadania será, no Brasil, um affaire deste século.
Mas há outras diferenças próprias ao continente latino-americano. A
mais significativa das quais nos remete aos processos distintos de independência. Não é
por acaso que a possessão espanhola conhece o fenômeno da "balcanização",
apesar das forças centrípodas expressas nas figuras de seus grandes libertadores,
enquanto a possessão portuguesa mantém sua unidade, apesar das suas forças
centrífugas, manifestas de norte (sobretudo Pernambuco) a sul (particularmente o Rio
Grande do Sul). Também não é o acaso que faz o Brasil, no início do século passado,
despontar (e se manter por quase todo o século) como "um Império entre
Repúblicas" (Bernardes,1983). Não por falta de sentimentos republicanos, presentes
de forma marcante entre pernambucanos e gaúchos, para não citar outros, mas antes pela
expressão particular da capacidade de domínio presente nas alianças estabelecidas pelos
mandantes. Afinal, a Inglaterra era aliada e dominante no espaço português desde o
século XVIII. Posição adversa, por outro lado, demarcava suas relações com a Espanha:
permanente rivalidade. Enquanto os ingleses atuavam na colônia portuguesa, para esmagar
os movimentos separatistas, na colônia espanhola os mesmos mercenários e comandantes
faziam o inverso.
Apesar da diversidade, dos caminhos peculiares, das estruturas
diferenciadas, nos une, no Terceiro Mundo, um passado comum: o de termos sidos
colonizados. Aqui, porém, com um diferença marcante em relação à África: em geral
somos filhos da ambigüidade, porque descendentes do senhor e do escravo, do governante e
do governado, com matizes muito distintas, não custa insistir, na grande extensão de
nosso território (Freyre, 1978).
Se o Estado surge sob os signos da violência e da exterioridade, a
nação desponta sob o signo da ambigüidade. Violência, exterioridade e ambigüidade
não constituem, aqui, simples fatos históricos, datados, passados, mas antes processos
constituintes de nosso trajeto, tecendo ainda hoje o nosso presente. Por essa, entre
outras razões, o poder nacional é sempre precário, instável, necessitando
permanentemente de se auto-explicar, sempre proclamar a tradição e enfatizar a
continuidade, sempre ameaçada pela ruptura. Ruptura sempre reprimida, mas sempre
despontante, embora jamais realizada. Sobretudo que o Estado, no período após a
Independência, assume a feição substancialista em sua identidade com um determinado
grupo social: os grandes proprietários de terra. Ou melhor: propriedade exclusiva, ele
também, de uma classe. Por isso, o Estado pode ser lido como uma coisa que se possui,
ganha a materialização de uma coisa que se manipula. Representação mais própria de
Hobbes do que de Locke, mais próxima de Lênin do que de Gramsci.
Como os signos da violência e da ambigüidade, o da coisificação do
Estado, presente na sua concepção como propriedade de alguns, não é um simples fato
histórico, com início e fim bem determinados, mas uma marca, um traço que, mesmo pouco
perceptível aqui ou acolá, permanece e se reproduz nas instâncias estatais, sociais e
espaciais. Não é esse o drama hoje da maior parte da América Central? Não tem essa
marca a natureza do comportamento político dos militares argentinos em época recente?
Não é sob sua inspiração que se estabelece o acordo entre conservadores e liberais na
Colômbia? Não é esse o signo imperante sobre certas instâncias estatais brasileiras,
que tão bem denunciava, já em inícios do século, Gilberto Freire? Em parte não se
encontra aí o cerne da obra famosa de Raimundo Faoro? Não é por esse motivo que certas
municipalidades constituem, ainda hoje, simples extensão da casa de seus
dirigentes/proprietários? Todos fatos e processos que se encontram tanto no passado, como
no presente do Brasil e da América Latina.
Por motivos que não cabe aqui explicar, a urbanização e, sobretudo,
a industrialização, convivem mal com a apropriação "privada" das
instituições estatais; têm uma coexistência tumultuada com a cidadania restrita e
regulada; fazem uma interface difícil com a inexistência de regras claras e consensuais
no espaço público; suportam mal a imagem do colonizado, agora povo, como ser inferior,
sub-raça de uma hierarquia estabelecida "cientificamente", como no século
passado por Gabineau e seus discípulos. Concomitante aos fenômenos da urbanização e da
industrialização surge, em novos moldes, a questão da nação, da nacionalidade, da
especificidade de nossas formações, da nossa própria identidade.
Assim, entre fins do século passado e meados deste (no caso do Brasil,
a partir de 1930), sobre a esteira dos fenômenos cidade/indústria, o Estado desloca-se,
gradativamente, do espaço da coisificação para o da expressão relacional, de uma
propriedade para uma relação de forças entre atores sociais. Não em sua totalidade,
não de forma abrupta, mas como tendência, como fato portador de futuro, que se irá
configurar plenamente, em toda sua força e vigor, após a Segunda Guerra Mundial.
Agora, Estado e nação começam a conhecer uma imbricação antes
desconhecida. A sociedade ganha configurações antes ilegíveis. Desponta a possibilidade
de uma democracia de massas, porque as massas tornam-se classes sociais, sujeitos, no
plural, que se posicionam diferentemente, que se exprimem, que constroem suas próprias
identidades. O espaço público começa a perder seu caráter privado.
As duas configurações primeiras do Estado em nosso continente, como
concepção subjetivista de domínio, na expressão de Bobbio (1980), e como
"propriedade da burguesia", na expressão de Lênin (1965), conduziu alguns
teóricos a pensá-lo como único agente ativo, conformando uma tradição em meados do
presente século. Sem qualquer sombra de dúvida, dominou em toda a América Latina a
idéia de que o Estado era o único agente ativo, enquanto a sociedade civil não era mais
do que um espaço passivo, puro receptáculo das ações estatais. Tomaram-se, assim, os
primórdios e as fases do Estado como a totalidade de sua história. Esqueceu-se que, aos
poucos, a sociedade, constituída nos interstícios das ações estatais, ganhou
interesses próprios e divergentes, ganhou personalidade e independência. A sociedade,
pelos processos de urbanização e industrialização, ganhou uma complexidade não
imaginada nos primórdios do século. E, dessa forma, modificaram-se as suas relações
com o Estado, estabelecendo, aos poucos, novos padrões de relacionamento.
3. DILEMAS DA TRANSIÇÃO (1974-1990)
A sociedade brasileira foi denominada, na década de 1980, de
transicional: marcada por uma transição aparentemente interminável entre o regime
ditatorial e o democrático. Para alguns analistas, ela ainda mantém, hoje, com a
eleição de Fernando Henrique Cardoso, esse caráter. A tentativa (frustrada) de mudança
constitucional em 1993 seria indício suficiente desse estado. Apenas na possibilidade de
sucesso do novo governo estaria a iminência do fim da transição. De todo modo, não
parece ser essencial imiscuir-se nessa discussão, mas antes enfatizar que o caráter
transicional da sociedade brasileira é uma afirmação muito genérica que demanda uma
qualificação.
A primeira peculiaridade da transição política brasileira, quando
comparada aos casos do sul da Europa (Portugal, Espanha e Grécia) e do cone sul
latino-americano (Argentina e Uruguai), parece residir em sua longevidade (Kucinsky,
1982). Normalmente se entende que os primeiros indícios da transição brasileira estão
localizados em 1974, mais precisamente no momento das declarações do então Presidente
Geisel, em agosto, sobre a "abertura lenta e gradual". Nessa perspectiva, o
Brasil teria vivido sua transição durante dezesseis anos: 1974-1990.
O Brasil conheceu, entre meados dos anos 70 e final dos anos 80, sob o
ponto de vista político, que aqui é o que nos interessa, várias e não uma transição.
Ou, em termos mais precisos, a transição política brasileira (1974/1990) conheceu
distintas etapas em seu processo (Nascimento, 1988).
A primeira etapa situa-se na segunda metade dos anos 70, mais
rigorosamente de 1974 a 1979, compreendendo o governo Geisel e a ascensão do General
Figueiredo. Sua natureza específica pode ser definida pelo termo liberalização. Pois se
trata de um processo de mudança no então vigente regime político a partir dos
detentores do poder estatal. Sua finalidade é a de modernizar o regime
burocrático-militar, ameaçado em sua reprodução. Em seu interior, porém, atores
posicionam-se por uma simples modernização, enquanto outros movimentam-se em direção a
sua superação.
A segunda etapa é a da inflexão, a da passagem entre o momento da
liberalização, também denominado de abertura, e o momento da democratização
propriamente dita, em que a condução do processo político a partir do interior do
regime não mais se realiza. A inflexão, ocorrida entre 1981 e 1984, é o momento de
ruptura, em que o velho regime político não pode mais se reproduzir e o novo regime não
tem suas formas desenhadas.
A terceira é a da democratização propriamente dita, momento em que
predomina a incerteza. O jogo agora é definido pelo resultado da relação de forças que
se estabelece entre os atores políticos. Essa etapa confunde-se, em grande parte, com o
governo de José Sarney, conhecido na época como "Nova República" (1985-1989).
A quarta e última etapa ocorre entre as primeiras e as segundas
eleições presidenciais. É a etapa em que se inicia a consolidação democrática.
Rigorosamente não se pode falar mais de uma transição, mas simplesmente do complemento
necessário ao novo regime gestado no processo transicional. Com turbulências e reformas
como demonstraram o impeachment-renúncia de Collor e as presentes tentativas de reforma
constitucional.
GEISEL: a liberalização do regime burocrático-autoritário
O discurso da "abertura" não distingue em nada o Presidente
Geisel de seus predecessores. Todos assumiram com a proclamação de criar uma democracia,
embora sempre adjetivada. No entanto, ao término de seu mandato, duas diferenças eram
marcantes: a) pela primeira vez o presidente fazia o seu sucessor; e b) o processo de
liberalização era visível, com ampla liberdade de imprensa, tratamento diferenciado aos
conflitos sindicais e posse dos oposicionistas eleitos em 1978, entre outros. Como
explicar esses dois fatos singulares?
As razões da liberalização do regime não se encontram em ameaças
visíveis da oposição. No início do governo Geisel a oposição armada estava
destruída, exilada ou presa e o segmento democrático-liberal reduzido, como resultado
das eleições de 1970, a não mais do que 21,3% da Câmara Federal e 28,8% do Senado. As
eleições de 1974 - em que a oposição aumenta significativamente seu percentual
no Congresso - são posteriores às intenções de abertura e irão contribuir antes
para o refluxo momentâneo de seu processo, cujos reflexos mais visíveis encontram-se na
Lei Falcão, em 1976, no fechamento do Congresso no ano seguinte e na suspensão do
caráter direto das eleições para governador em 1978.
Também não parecem residir as razões da liberalização em uma
suposta crise econômica, cujos contornos se tornam claros apenas em fins da década de
70. A primeira crise do petróleo é tida como um fenômeno passageiro, e a taxa de
crescimento econômico de 1974 é próxima à do milagre econômico da primeira metade
daquela década. Mais precisamente, os sinais da crise econômica internacional só se
manifestam no Brasil a partir de 1975 e são atenuados pelo processo de endividamento
externo, que tem aqui seus primórdios. Afinal, o primeiro ano de recessão econômica
ocorreu apenas em 1981.
Parece mais consistente atribuir as razões da "abertura" a
dois fenômenos que, visíveis em 1973 pelo grupo comandado por Geisel, ameaçam a
robustez de então do regime: a) o descontrole do "Estado dentro do Estado", ou
seja, o poder assumido pela Comunidade de Informação e Segurança; (CIS) b) a
fragilidade do processo de legitimação, assentado exclusivamente em índices econômicos
que não podiam ser mantidos indefinidamente.
A ideologia do desenvolvimento com segurança só tinha respaldo social
com clara sustentação material. O projeto de "grande potência" jamais
galvanizara, efetivamente, amplos setores da opinião pública, salvo em momentos tênues
como o da Copa do Mundo e início do governo Médici (1970/1971). Daí decorriam duas
tarefas fundamentais definidas pelos estrategistas no poder: a) controlar o esquema de
segurança selvagem, assentado sobretudo no DOI-CODI, mas cujas raízes se encontravam no
interior da instituição militar; e, b) redefinir o processo de legitimação do regime
pela criação de novos canais de comunicação com a sociedade civil. Essas duas tarefas,
perseguidas obstinadamente em condições adversas, foram obtidas parcialmente por
intermédio de dois procedimentos. O primeiro foi o da consolidação do novo
profissionalismo na instituição militar, definido como o restabelecimento do princípio
da hierarquia, a demarcação do espaço da Comunidade de Informação e Segurança e a
redução do nível de politização no interior das Forças Armadas. O segundo foi o da
descompressão do regime, assegurado pela liberdade de imprensa, mesmo em choque constante
com os censores, pelo processo eleitoral, ainda que em circunstâncias desfavoráveis, e
pelo novo tratamento das questões sociais, particularmente daquelas que diziam respeito
ao movimento sindical e às manifestações dos movimentos sociais urbanos.
Os limites da liberalização obtida e do alcance das tarefas definidas
encontram-se nas condições adversas que encontrou a administração Geisel em seu
transcurso, e que explicam, em parte, o vaivém do processo: a) a resistência da
"linha dura", particularmente nos quadros intermediários e médio-superiores
situados na instituição militar, apresenta-se sólida, pois os "militares no
governo" detêm a cabeça da instituição, mas não o seu corpo; b) as
manifestações da crise econômica internacional, que conduziu o governo a aprofundar o
processo de estatização e represar o crescimento das demandas empresariais e
trabalhistas; c) a debilidade da oposição democrática em controlar e/ou dirigir a
oposição mais popular alocada no novo movimento sindical e nos movimentos sociais, com
apoio dos setores progressistas da Igreja.
De certa forma, a lentidão e a instabilidade no processo de abertura
devem-se, em parte, à emergência da sociedade civil por intermédio das eleições de
1974, nas quais as oposições saíram vitoriosas, funcionando como um grande espelho para
os atores oposicionistas, situados no nível silencioso dos microespaços. Com elas foi
possível perceber a dimensão social da oposição política ao regime
burocrático-militar e a relativa fragilidade deste. Em contrapartida, a guinada para
direita, de 1975 a 1977, por parte do governo, e o exacerbamento das ações repressivas
da Comunidade de Informação e Segurança (vide o massacre da Lapa, São Paulo, entre
outros), terminaram por apressar o processo de liberalização que retorna, com mais
força, em 1978. Esse é o ano que marca de São Paulo a Rio, de Recife a Porto Alegre, o
ressurgimento explosivo das associações de bairro que lutam por acesso a bens e
serviços coletivos. E, também, é o ano em que retorna o movimento operário com as
greves no ABC paulista (Werneck Vianna, 1983). Finalmente, é o ano que demarca a
dinâmica associativista dos setores médios urbanos, dos engenheiros aos professores, dos
médicos aos economistas, criando novos atores sociais (Boschi, 1986).
FIGUEIREDO: Democratização à revelia da linha dura
O legado que Figueiredo recebe é extremamente desfavorável para dar
continuidade ao processo de liberalização do regime. E isso pode ser constatado através
dos seguintes aspectos, que se manifestaram gradativamente ao longo de seu governo: a) o
retorno da "linha dura" ao controle do Estado Maior das Forças Armadas; b) uma
liberdade de imprensa que auxilia a oposição, sem render dividendos ao governo; c) um
leque amplo e crescente de oposição, que penetra profundamente na sociedade civil, agora
em franco processo de articulação; d) uma crise econômica aguda que se reflete em
recessão (1981 e 1983); e) o fracasso parcial da legislação eleitoral casuística em
1982, retirando do governo federal o controle sobre os estados centrais da federação
(São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais); f) a sustentação política do governo
federal entra em declínio, com o surgimento das primeiras rebeldias nos governos
estaduais.
Surpreendentemente, com todos esses fatores adversos, a liberalização
não retrocedeu, transformando-se em democratização. Não que tenham faltado propostas
de retrocesso, mas simplesmente porque esse procedimento, aos poucos, tornou-se inviável.
E isso, apesar do refluxo dos empresários, nos primórdios do governo Figueiredo. A
inviabilidade do retrocesso deve-se, em grande parte, aos "custos da
repressão", expressos no desenvolvimento organizacional da sociedade civil, e na sua
articulação/aproximação com a sociedade política, evidenciada nas eleições de 1974
e 1978 e confirmadas em 1982 (Santos, 1985).
O momento em que o retrocesso se tornou impossível, momento de
inflexão, ou início da transição propriamente dito, parece ter ocorrido entre meados
de 1981 e meados de 1984, e quatro eventos o confirmaram: a) o episódio do Riocentro; b)
as eleições de 1982; c) a campanha das Diretas-já em 1984 e, no mesmo ano, d) a
formação da Aliança Democrática, unindo numa mesma frente o PMDB e setores divergentes
do PDS.
O episódio do Riocentro demonstrou aos setores médios da
instituição militar que os custos de manutenção no poder eram muito altos, ameaçando
os valores, a hierarquia e a imagem (já desgastada) da própria instituição. Ficou
claro para grande parte dos oficiais que os autores do atentado pertenciam à
corporação. Por isso, a "linha dura" perde o poder de recrutamento interno, o
"Estado no Estado" perde seu espaço de manobra, e isso exatamente um ano antes
de retornar ao controle do comando das FFAA. A situação, assim, inverte-se. A
"linha dura" conquista a maioria da cabeça da instituição militar, mas perde
o corpo. Assim, a espinha dorsal da instituição militar, do ponto de vista político,
estava quebrada. A força de inércia é a lei imperante em instituições nessas
circunstâncias, contribuindo, assim, para a continuidade da transição.
As eleições de 1982, um ano depois, criaram uma diarquia,
desfavorável aos opositores da democratização: de um lado, um governo central nascido
de eleições indiretas e de um processo já contestado, cuja legitimidade, débil,
esfacela-se com a explosão da recessão econômica em 1981 e, de outro lado, os
diferentes governos estaduais da oposição, legitimamente eleitos, cujas bandeiras de
luta têm em comum a reinstalação da democracia no país. Agora, soma-se à negatividade
da contestação e rejeição do antigo regime, que se manifestara desde 1974, a
positividade de uma alternativa real de poder, articulando políticos de tradições e
partidos políticos diferentes (Leonel Brizola do PDT, Franco Montoro do PMDB e Tancredo
Neves do então PP).
A campanha das Diretas-já (1984) demonstrou, com nítida visibilidade,
o grande desejo de mudança existente no âmbito da sociedade e, dessa forma, que qualquer
tentativa de retrocesso ou manutenção do regime não encontraria base social
significativa. Assim, a reprodução do regime tornava-se inviável, pois, além da recusa
por parte da sociedade, não contaria com o entusiasmo dos militares da corporação e,
menos ainda, com o apoio da parcela mais significativa dos empresários e dos principais
governos estaduais, inclusive no Nordeste.
Sem base social, econômica ou militar, o velho regime perde parte da
sustentação político-partidária com a formação da Aliança Democrática, reunindo o
PMDB e a dissidência do PDS (que dará nascimento ao PFL Partido da Frente
Liberal). Da bancada de 281 ou 51,3% dos membros do Congresso Nacional, eleita em 1982, o
PDS perde 117 para o PFL, ficando reduzido, em 1985, a menos de um terço (29,1%).
Os eventos de 1984-1985 (com a eleição pelo Colégio Eleitoral de
Tancredo Neves) revelaram, ao lado da inviabilidade de reprodução do velho regime, os
contornos de sua superação: a frente de oposição ampliou-se para a direita com uma
candidatura palatável aos setores mais atrasados do empresariado e da instituição
militar. As FFAA saem do cenário, conservando, porém, largas fatias do poder; os
empresários ingressam com força na cena política; a tecnoburocracia mantém seus
privilégios; os velhos políticos, que souberam se desligar a tempo do antigo regime,
são conservados na nova composição governamental. Ademais dos setores políticos
identificados com o velho regime, apenas os setores políticos mais ligados aos meios
populares, à esquerda, ficaram de fora particularmente o Partido dos Trabalhadores
(PT). Demarcando, assim, uma segunda e fundamental característica da transição: o seu
aspecto conservador, permitindo que alguns autores a denominem de "transação"
(Share e Mainwaring, 1986).
O PAPEL DO PROCESSO ELEITORAL
Um outro significado, de porte mais teórico, dos eventos de 1984-1985,
é o estreito relacionamento entre a sociedade política e civil. Embora de conotação
conservadora, a Aliança Democrática anuncia clara disposição de mudanças,
particularmente a destruição do "entulho autoritário" por intermédio de uma
nova constituição e a realização de reformas agrária, tributária e
administrativa. Enfim, assume um caráter transicional e reformista.
Dessa sucinta análise dos eventos que marcam as duas primeiras fases
da transição política, ressalta-se uma terceira característica desta: o papel nela
desempenhado pelo processo eleitoral (Lamounier, 1987). Decorrência, aliás, de uma
peculiaridade do antigo regime, que jamais abandonou completa e radicalmente as regras da
democracia liberal: eleições, parlamento e rodízio no exercício da presidência. Como
já foi citado, duas eleições foram particularmente importantes, a de 1974, que
possibilitou à oposição tomar consciência de sua real dimensão, tirando-a da ameaça
de desaparecimento a que tinha sido relegada em 1970, e as de 1982, que criaram no país
uma verdadeira diarquia. Nesse ano, deve-se agregar, pela primeira vez o partido do velho
regime perde as eleições no plano federal: enquanto o PDS teve para a Câmara Federal
36,7% dos votos, o PMDB teve 36,5%; o PDT, 4,9%; o PTB, 3,8% e o PT 3% (Pereira, 1984).
Porém, o PDS, pelas características da legislação eleitoral da época, conservou a
maioria no Congresso Nacional.
O processo eleitoral desempenha, portanto, o papel de canal de
articulação entre as sociedades política e civil, cujo ápice político se encontra na
campanha das Diretas-já e no emocional, em abril de 1985, por ocasião da morte de
Tancredo.
Antes de ingressar na terceira fase da transição, a da
democratização propriamente dita, uma última característica do período inicial da
transição merece ser citado.
Apesar de alguns analistas chamarem a atenção para o fato de o
processo transicional ter sido, em sua totalidade, conduzido de "cima para
baixo", a cronologia não confirma isso. É verdade que a extinção do AI-5, a
anistia, o pluripartidarismo e a legislação eleitoral (casuística) foram decisões
estratégicas, cuja eficácia passou pela dispersão da oposição, fragilidade das
sociedades civil e política e isolamento da esquerda do leque partidário. Os rumos
definitivos, porém, foram muito diferentes daqueles planejados pelos estrategistas do
governo militar. Entre o projeto e o processo da abertura, surgiram uma nova sociedade
civil e uma sociedade política articulada a esta.
O associativismo desenvolveu-se na primeira metade da década de 80, no
seio da sociedade civil, à margem da estratégia do "Estado": no meio popular,
com os movimentos de bairro; no meio sindical, com as novas centrais sindicais; nos
setores médios urbanos, com as novas associações e no meio cultural com o movimento das
mulheres. Criam-se, assim, novos sujeitos sociais e novas demandas, às quais o Estado
não consegue responder e as quais não controla.
Um partido societário, o PT, com grande presença nos meios populares
organizados, principalmente no Sudeste, surgiu no início da década de 80, embora ganhe
efetiva expressão eleitoral apenas em seu final. Enfim, a oposição liberal-democrática
não se desfez, mantendo seu movimento ascendente, embora com o superdimensionamento de
seu aspecto liberal com a vitória de Collor de Mello em 1989, enquanto a direita mais
conservadora se dispersa, com as sucessivas perdas eleitorais do PDS.
Conclusão: a administração Figueiredo perdeu o rumo do processo, a
capacidade de direção, entra em crise e se paralisa. A condução "de cima para
baixo", que constituiu a característica do período da gênese da transição,
desfaz-se na fase do começo que marca o momento seguinte, o da inflexão.
A diferença conceitual entre gênese e começo, embora pouco observada
(Nascimento, 1982) encontra-se na obra de Marx: na gênese, os processos do novo pertencem
ao velho, enquanto no começo, quando a articulação entre esses processos se realiza, o
novo começa a se gestar. São duas fases qualititativamente distintas (Marx, 1966). A
inflexão entre a gênese e o começo da transição resulta mais da confluência de
ações (e omissões) de atores sociais diversos, alocados no interior das sociedades
civil e política, assim como do Estado, do que da estratégia dos atores políticos
alojados no interior do regime militar.
DOS MILITARES AOS CIVIS: a passagem sem ruptura
A análise, até aqui desenvolvida, permite entender, em parte, porque
a instalação do primeiro governo civil (1985-1990) não se constituiu em uma ruptura
significativa com a situação anterior. Mas não permite verificar porque esse governo
ficou imobilizado, pois, não obstante alguns interregnos, particularmente por ocasião da
vigência do Plano Cruzado (1986), a paralisia do Estado manteve-se. Contribuiu para
tanto, embora não se possa afirmar quanto, a morte do líder "carismático" da
transição (Tancredo Neves) e sua substituição pelo antigo presidente da Arena, José
Sarney. Exceto a instalação do Congresso Constituinte, nenhuma das reformas propaladas
se efetivou.
Duas mudanças, no entanto, ocorreram, agravantes do quadro político
nacional e em parte responsáveis pela dinâmica de instabilidade: a) a separação
manifesta entre as sociedades civil e política; e b) a erosão das forças hegemônicas
do antigo regime, sem a emersão imediata de uma nova.
Os resultados das eleições de 1986, aparentemente, seriam negadoras
dessas assertivas, com a vitória esmagadora do PMDB. Sem qualquer intenção de ironizar,
trata-se de uma verdadeira aparência.
Quatro foram os resultados mais notórios das eleições de 1986:
a) a vitória esmagadora do PMDB, tanto no Congresso Nacional
(Constituinte) quanto nos governos estaduais;
b) um sistema partidário concentrado no centro;
c) a emersão de uma nova instância política (os governos estaduais);
d) a prevalência do conservadorismo no âmbito da aliança política
no poder.
Em princípio, esses quatro resultados deveriam articular-se num escopo
de estabilidade institucional. Ledo engano. E por vários motivos.
A vitória esmagadora do PMDB deveria atribuir-lhe a condição de
partido dirigente do Estado. Porém tal não ocorreu. O PMDB que surge das eleições de
1986 é um partido que se anula em suas dissenções internas, dividido nas três
categorias clássicas das afinidades ideológicas: esquerda, centro e direita. Não
existindo uma hegemonia clara no partido, ele torna-se, automaticamente, inapto ao
exercício do poder. Afinal, nenhuma das três correntes, por si, tem forças para se
atribuir a direção do Partido e, por conseqüência, a direção do Estado.
A teoria sobre sistema partidário afirma, com largo respaldo
empírico, que a concentração no centro é um fator de estabilidade institucional
(Sartori, 1982). A obtenção de 77% das cadeiras do Congresso Constituinte pela antiga
Aliança Democrática deveria funcionar nesse sentido. O perfil ideológico do Congresso
Constituinte esteve, porém, um pouco além das siglas partidárias.
Apesar da variedade de critérios, os resultados das análises do
Congresso Constituinte, embora distintos, são próximos. De comum, resulta a prevalência
dos setores de direita, que se refletiu, aliás, nas diversas composições governamentais
que marcaram a Nova República. Essa característica, antes que um fator de estabilidade,
parece ter contribuído para a dissociação entre as sociedades civil e política e para
o distanciamento da primeira em relação à esfera estatal e, por conseqüência, para a
instabilidade política. Sobretudo que a frágil hegemonia parlamentar da direita teve
sérias dificuldades de ser exercida, pois, foi incapaz de responder às demandas da
sociedade civil por motivos óbvios e, ao mesmo tempo, incapaz de
reprimi-las.
Em resumo, o resultado das urnas de 1986 somou à paralisação do
Estado a da sociedade política. Nessa situação, nada mais natural que a dissociação
desta em relação à sociedade civil que, somada à crise do mercado, provocou o
surgimento, nesse espaço, de manifestações desagregadoras. Assim, assiste-se, durante a
segunda metade dos anos 1980, a manifestações de uma "sociabilidade marginal"
com possibilidades de generalização. Com o bloqueamento da mobilidade social ascendente
que caracterizou a sociedade brasileira neste século, não restou aos pobres outra
alternativa que a transgressão à lei. À fragilidade do regime agrega-se a da crise de
governabilidade, à paralisia da sociedade política junta-se a sua dissociação da
sociedade civil.
A Nova República caracterizou-se, assim, politicamente, pela inércia
pendular: movimentos políticos que não conseguem avanços para qualquer direção; não
se definem regras precisas para a ação dos empresários; não se respondem às demandas
sociais; não se articula uma base social visível e não se organiza um bloco político
majoritário. A Nova República é sustentada pelo efeitos de medidas circunscritas (Plano
Cruzado) e da política fisiológica ("Tudo pelo social"), além da
mobilização em torno da elaboração da Carta Magna.
4. AS RELAÇÕES ESTADO-SOCIEDADE
NO BRASIL (1889-1989)
As relações Estado e sociedade no Brasil não seguiram um padrão
uniforme e monolítico. Recuperar, mesmo que muito brevemente, seus diversos padrões é
indispensável para compreender a situação política atual e, nela, a questão da
participação política.
A história republicana brasileira pode ser lida até a Nova República
como a história da ampliação da presença e intervenção do Estado na sociedade,
movida por ideologias diversas (autoritarismo nos anos 1920-1930, nacionalismo nos anos
1940-1950, desenvolvimentismo nos anos 1950-1960 e nacionalismo-integracionista nos anos
1970) e movimentos sociais, sobretudo de cunho militar, desde o tenentismo dos anos
1920-1930, até o movimento político-militar vitorioso em 1964. Nessa história é
possível distinguir três momentos marcantes. (Jaguaribe, 1962; Amaral, 1938; Carone,
1965; Fausto, 1970; Ianni, 1965).
No primeiro momento histórico (1889-1930), o Estado, de "cunho
liberal", é chamado a intervir sobretudo nas relações comerciais do Brasil com o
exterior. A natureza agroexportadora da economia brasileira coloca, como problema central
da intervenção econômica do Estado, o câmbio. Afora isso, este se coloca relativamente
ausente. (Fausto, 1970)
No segundo momento (1930-1964), em face do esgotamento da economia
agroexportadora, o Estado é chamado a intervir com mais rigor, sobretudo para sustentar
minimamente essa economia (geradora de divisas) e possibilitar o desenvolvimento
econômico de uma economia centrada na indústria e no consumo interno. É o momento em
que o país conhece a industrialização através do processo denominado de
"substituição de importações".
O esgotamento da "fase fácil de substituição de
importações" (Tavares, 1983) demandará um crescimento maior da intervenção do
Estado e um conseqüente crescimento de sua centralização no terceiro momento
(1965-1985). Agora, o Estado é obrigado a investir diretamente na produção (pela
criação de empresas públicas e mistas), no circuito financeiro, na captação de
recursos externos e, de forma mais forte que anteriormente, no fornecimento de bens e
serviços nos novos espaços urbanos.
Evidentemente, esse aumento de intervenção estatal na economia se faz
acompanhar de igual medida no espaço social, redefinindo os espaços público e privado
na sociedade (e restringindo este último), aumentando seu poder de controle e vigilância
sobre a população e modificando sua imagem e seus mecanismos de legitimação política.
De igual maneira, podem-se observar transformações significativas no
regime político. Conservando-se a mesma divisão proposta anteriormente, em três
momentos históricos, observa-se que cada um daqueles momentos compreendeu uma ampliação
do processo de participação política, exceto os dois interregnos de governo
autoritário (1937-1945 e 1964-1985). Ampliação da participação e da abrangência da
cidadania política.
A democracia oligárquica e restrita da Primeira República (1898-1930)
foi sucedida por um processo de incorporação política dos setores médios e parte dos
populares urbanos à vida política, pelo que se convencionou chamar, no Brasil e em parte
da América Latina, de populismo (Weffort, 1978 e Ianni, 1966). Finalmente, uma democracia
de massas começa a se desenhar no país, após o regime militar, com a incorporação
política das massas rurais e dos analfabetos. Movimento que já se prenunciava no início
dos anos 60 e que o movimento político-militar vitorioso, na época, apenas retardou.
(Jaguaribe, 1962).
A centralização do poder estatal e a ampliação dos espaços de sua
intervenção, congeminadas às modificações no regime político, criaram uma crise de
governabilidade, entendida como uma reduzida capacidade, por parte do governo, de
estabelecer regras claras de participação política e econômica, de administrar os
conflitos entre os atores sociais, de ser obedecido e reconhecido pelos cidadãos, de
prestar os serviços considerados pertinentes e de fornecer os bens reivindicados pela
sociedade.
A crise de governabilidade assume feições particulares no Brasil, na
segunda metade dos anos 80, devido a uma série de variáveis, devendo-se enunciar, pelo
menos, as mais importantes:
a) o esgotamento do modelo econômico, o que conduziu o país, na
década passada, a taxas reais de crescimento mínimo, em torno de 1% ao ano;
b) o crescimento da dependência externa através da dívida e da
necessidade de exportações em volume crescente para se manter em dia com as exigências
dos bancos credores;
c) o esgotamento do poder de tributação do Estado, que, somado a seu
endividamento interno, de caráter financeiro, reduz sua disponibilidade de recursos e,
assim, de intervenção;
d) o crescimento do corpo funcional do Estado, de forma desordenada e
ineficiente, em face do esgotamento de mecanismos de legitimação e os baixos índices de
crescimento econômico;
e) o maior espaço para a organização de interesses e o crescimento
das pautas reivindicativas dos atores sociais, sobretudo de cunho popular, tornando a
regulação dos conflitos mais complexa;
f) a perda de consenso e de credibilidade por parte dos governantes (e
não só do governo central), partidos políticos e instituições estatais em geral;
g) as disfunções no tecido social, com o surgimento de
"socializações marginais", diante da ineficiência das intervenções estatais
e da incapacidade de absorção da força de trabalho pela estrutura produtiva.
E, finalmente, a revolução tecnológica, com repercussões sobre a
inserção do país na nova divisão internacional do trabalho e sobre o conceito de
soberania, tornando o nacionalismo dos anos 60 obsoleto;
No caso específico do Brasil, é preciso também tomar em
consideração que essa crise de governabilidade dos anos 80 ocorre em meio a um conjunto
relativamente amplo de crises, tanto de caráter econômico, como institucional ou
político. Entendendo-se aqui o termo crise como uma dificuldade manifesta dos sistemas
procederem como normalmente esperado, criando situações de ruptura com as expectativas
dos diversos atores econômicos, sociais e políticos participantes desses sistemas. Além
da crise econômica, de visibilidade evidente, presente à exaustão na mídia e no
cotidiano das pessoas, deve-se enunciar:
a) uma manifestação de crise no tipo de intervenções que o Estado
deve realizar. As demandas são não apenas múltiplas como divergentes. Pressões para
uma manutenção e mesmo ampliação das intervenções até então realizadas
contrapõem-se a pressões para restringir essas mesmas intervenções e seus espaços de
incidência. Restrição de volume, mas também de qualidade. De toda forma, uma incerteza
quanto ao papel do Estado em face das mudanças tecnológicas, sociais, políticas e
culturais que ocorrem no mundo e no país.
b) uma crise no regime político, na medida em que o velho regime
burocrático-autoritário se extinguiu em 1985 e o novo regime, que se prenunciava
nitidamente democrático, não havia ainda se estabelecido completamente em 1989 (Diniz,
1986; Nascimento, 1989).
c) finalmente, a mais importante, uma crise de hegemonia. As forças
conservadoras foram em parte deslocadas do poder, em parte reciclaram-se, em parte
modernizaram-se, mas, se obtiveram a "tolerância" da nação, não ganharam o
seu consenso. Evidentemente, controlaram as instâncias máximas e fundamentais de
decisão na segunda metade dos anos 80, porém sem obter o reconhecimento da sociedade
civil, salvo em 1986 com o Plano Cruzado. De outro lado, as forças renovadoras,
progressistas, democráticas e populares não foram capazes de criar instrumentos e
autoridade para galvanizar o país. Esfrangalharam-se em diversas siglas partidárias,
dissolveram-se em partidos diversos, digladiaram-se. Nesse equilíbrio de forças, a
tendência dos órgãos da Administração Pública e dos grupos governantes é a
paralisia, a incapacidade de iniciativas ousadas que quebrem o equilíbrio e dêem às
instituições governamentais e estatais a possibilidade de construir respostas
conseqüentes às demandas dos cidadãos.
Se se tomam em consideração as observações acima, é possível
identificar os obstáculos à governabilidade no Brasil, nos finais dos anos 80,
conformados por quatro traços fundamentais:
1) Crise de recursos e meios: as instituições estatais, as
burocracias e os grupos governantes não sabiam como munir-se de recursos suficientes para
manter o conjunto de intervenções que a sociedade esperava do Estado, ou não tinham
condições, ou não tinham poder de fazê-lo. Assim, este não tinha os recursos
suficientes para financiar esse conjunto de intervenções ou mesmo aquelas que se
poderiam definir como prioritárias. Nessa situação, o Estado se vê na contingência de
manter o seu funcionamento ordinário, sem investimentos significativos (ou capacidade de
mobilizá-los), vendo-se desgastar a infra-estrutura econômica em todo o país,
comprometendo o crescimento econômico, não apenas nos anos presentes, mas também no
futuro.
Para o cidadão, a questão assume as feições nítidas de perda de
qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado, e a responsabilidade recai sobre os ombros
dos governantes.
Nas unidades da Federação (seus executivos), esse aspecto da crise se
reflete na ausência de recursos para qualquer tipo de investimento mais significativo e
no represamento de recursos federais, aumentando as pressões populares e as doses de
conflito a regulamentar. No caso das unidades da Federação situadas nas regiões menos
desenvolvidas do país, a repercussão desse traço da crise de governabilidade é ainda
mais contundente, vista a importância histórica das intervenções estatais para
propiciar o crescimento econômico ou aparar as conseqüências da crise econômica.Em
resumo, trata-se de uma variante do que OConnor chamou de crise fiscal do Estado
(OConnor, 1973).
2) Crise de discernimento: as instituições estatais, mas
sobretudo os grupos governantes, perderam a capacidade de discernir, de identificar, de
hierarquizar as demandas dos cidadãos. Houve uma notória perda de capacidade das
unidades estatais em reconhecer e definir quais os segmentos sociais a serem atendidos,
quais os campos de atuação essenciais a serem ocupados, quais os tipos de ações mais
pertinentes que deveriam ser produzidos, pois o amplo leque de demandas, de um lado, e a
escassez de recursos, de outro, dificultam as opções.
Para as unidades da Federação, essa problemática se torna mais tensa
por duas ordens de razões.
Em primeiro lugar, a instabilidade política que repercute sobre o
conjunto de pressões a que estão sujeitos e de opções que são chamados a fazer os
seus governantes: apóia o presidente? Apóia qual tendência do partido? Mantém o apoio
de qual base?
Em segundo lugar, pela dependência em relação ao governo central e
às instituições estatais no nível federal. No caso dos governos do PMDB empossados em
1987, há um agravante a mais, parte dos integrantes dos grupos governantes são despidos
de experiência governativa e, em alguns casos, da necessária sensibilidade política,
visto o afastamento de mais de vinte anos da gestão da "coisa pública".
De modo geral, esse aspecto da crise é acentuado porque as mudanças
culturais hodiernamente são rápidas, de difícil diagnóstico e os processos de
geração de informações para os governantes encontram-se, no geral, sucateados.
3) Crise administrativa: as instituições estatais e os grupos
governamentais não conseguem produzir as ações necessárias ou consideradas como tais,
ou não produzem as ações exigidas pela sociedade. Não se trata, agora, de identificar
ou definir o que fazer, mas uma inadequação interna de se fazer aquilo que se decide, de
fazer "a máquina funcionar", produzir ações condizentes com as decisões. No
caso de alguns executivos, à deficiência das instituições estatais soma-se a
existência de pólos de poder interno e opostos, que desencadeiam uma luta surda de
oposição no lugar mesmo que deveria ser o espaço da decisão. (Nascimento, 1988)
As resistências do corpo funcional em algumas instituições estatais
geram uma "esquizofrenia" em que o sim sucede o não em ordem aparentemente
ilógica ou fora de qualquer expectativa. Decisões e ações implementativas tomam
direções antagônicas, por vezes simultaneamente, tornando inócuas as decisões
tomadas.
4) Crise de legitimação: os grupos governamentais, em suas
decisões e ações, não encontravam aceitação e reconhecimento por parte da sociedade
civil, ou encontravam-nos apenas de forma irrisória e difusa. Os procedimentos de tomada
de decisão, por outro lado, não tinham sua regulação clara e reconhecida, o que
aumenta o grau de insatisfação com seus resultados, pois nesse caso estes podem ser
sempre contestados, sobretudo quando não satisfazem a determinados segmentos importantes
da sociedade.
É notório que essa crise não se manifesta de maneira igual para
todos os grupos governantes, ou seja, para todos os executivos, nem tem a mesma faceta
caso se trate do espaço federal, estadual ou municipal, porém os envolve, de uma maneira
ou outra, a todos. Há variações e elas devem, em cada caso, ser explicitadas. Não é
aqui, porém, o espaço para tal tarefa.
Deve-se concluir esta parte com uma observação decisiva: a crise de
governabilidade não ganhou foros de gravidade no país pela simples razão de a pauta de
demandas e o poder organizativo dos setores mais populares do país terem sofrido um
relativo processo de desgaste. Com isso, as pressões sobre o exercício do poder estatal
tem-se descongestionado. O que possibilita, aliás, aos grupos mais ágeis, em
determinados locais, viverem como se ausentes de uma crise dessa natureza. Diante do
refluxo das demandas, suas poucas decisões e ações são suficientes para obter índices
razoáveis de satisfação no seio da população.
5. RAZÕES E "DESRAZÕES" DA CRISE
BRASILEIRA (1980-1994)
No início dos anos 90 (até 1994), os indicadores econômicos e
sociais sobre a América Latina possuíam um sentido inverso, segundo o Brasil fosse ou
não considerado. Quando presente, o continente parece submerso num mar de inflação, com
índices quase nulos de crescimento e altos indicadores negativos do ponto de vista
social. Quando ausente, a inflação cai ao nível histórico do continente, os índices
de crescimento são claramente positivos e os indicadores sociais esperançosos.
A idéia comumente divulgada de que o Brasil ingressou em uma crise no
início dos anos 80, da qual apenas hoje começa a emergir, não constitui uma falsa
representação. Entre 1980 e 1994, o Brasil viveu uma sucessão de crises econômicas,
políticas e sociais que se acumulavam e se interpenetravam. Por isso, para entender a
situação do Brasil em inícios dos anos 90, é fundamental considerar que não se está
diante de uma crise, mas de uma "complexa transição estrutural" (Furtado,
1992), que não se confunde nem com a crise econômica que se abateu sobre a maioria dos
países latino-americanos nos anos 1970-1980, nem com a longa, pacífica e conservadora
transição política brasileira, iniciada em 1974 e concluída em 1990.
Não se trata, portanto, de uma crise, mas de várias que se
interpenetram, acrescentando sempre novos problemas e novas dimensões: política,
econômica, social, institucional e administrativa. A complexidade predomina, assim, tanto
no sentido diacrônico quanto no sincrônico:
o final dos anos 70 é caracterizado por uma crise de
legitimidade política do regime militar;
o início dos anos 80, por uma dupla crise, política, nas
indecisões da passagem do regime autoritário ao democrático, e econômica, manifesta na
queda das taxas de crescimento (negativas em 1981 e 1983) e aumento desproporcional da
dívida externa;
no final dos anos 80 e início dos 90, a situação torna-se,
simultaneamente, mais aguda e mais complexa: a crise econômica assume um caráter
estrutural incapacidade de redefinir a inserção no mercado internacional e
particularmente perigosa, com situações de hiperinflação (1989/1993) e crescimento da
dívida interna e do déficit orçamentário, mas sobretudo por uma profunda
instabilidade; a crise política invade a esfera da representação, com a fragmentação
crescente do sistema partidário, ganhando novos componentes institucionais no
enfraquecimento da ação estatal e nos problemas decorrentes da Constituição promulgada
em 1988, que propicia conflitos freqüentes entre os poderes constitucionais.
Acrescente-se, no final dos anos 80 e início dos 90, uma nova faceta
da crise, a social, com o bloqueamento da mobilidade social, aumento dos bolsões de
pobreza e da violência e criminalidade urbanas, no refluxo dos movimentos sociais, que
redundam, por razões diversas, no esgotamento do espaço regulado.
A crise política já foi anteriormente analisada. A econômica é
profusamente conhecida; a social, porém, tem sido insuficientemente discutida.
A CRISE SOCIAL: o colapso do espaço regulado
Os movimentos sociais contribuíram, com outros atores sociais e
políticos, para produzir a crise de legitimidade do regime militar entre final dos anos
70 e início dos 80. As reivindicações e mobilizações populares da época, se de um
lado se inserem na dinâmica de integração social, de outro lado revelam o caráter
centralizador e autoritário do Estado.
A substituição do regime militar pelo democrático seguiu-se, como
era de se esperar, a uma mudança nas relações entre os movimentos sociais e o Estado. O
caráter contestador das mobilizações sociais esvaneceu-se em proveito do caráter
puramente reivindicativo. A transgressão da lei antigreve, no final dos anos 70 e início
dos 80, pelo novo sindicalismo da grande São Paulo, deu lugar a greves negociadas em todo
o Brasil e a denúncias, protestos e mobilizações populares de bairro. Aumentaram as
reivindicações e pressões sobre os novos governos municipais e estaduais,
democraticamente eleitos. A luta contra o autoritarismo foi substituída por demandas
precisas: salários, garantia de emprego e melhores condições de trabalho, no caso dos
movimentos próprios à esfera da produção; serviços e bens públicos, no caso dos
movimento de quartiers. Apenas no campo, as mobilizações populares assumiram, em meados
dos anos 80, um caráter violento, com ocupações de terra, tendo uma resposta dos
proprietários ainda mais violenta, dirigida pela União Democrática Ruralista (UDR), que
resultou em um fracasso retumbante da proposta de reforma agrária. As cidades
permaneceram surdas aos clamores do campo, já prisioneiras, em meados dos anos 80, de
seus próprios problemas, voltadas, corporativamente, para si mesmas.
Assim como a passagem da contestação à negociação, no âmago de um
processo de construção democrática, também ocorreu a perda do papel de articulador de
interesses políticos que os movimentos sociais desempenharam nos anos 70, na medida em
que este era assumido, agora, pelos novos partidos políticos, em um quadro de
organização pluripartidária que se desenha desde as eleições de 1982. A sociedade
civil, como espaço de criação de valores, teria de assumir, necessariamente, novas
dimensões e diferentes contornos. Surpreendem, porém, os efeitos dessa mudança, que
termina por contribuir na agudização da crise no final dos anos 80, em seus aspectos
simultaneamente sociais e políticos.
O movimento sindical brasileiro ganhou três características básicas
durante a década de 80: a) fragmentação da representação nacional (CUT, CGT e Força
Sindical); b) perda de capacidade de mobilização, com seu deslocamento do setor privado
ao público; c) acentuado corporativismo. Essas três tendências tiraram o ator social da
grande cena, alocando-o nos problemas comezinhos.
A fragmentação da representação sindical roubou força e capacidade
ao movimento em formular propostas políticas mais amplas, impulsionando-o, nas disputas
internas, a desenvolver suas naturais tendências corporativas. As lutas internas no
movimento sindical permitiram uma relação multipartidária, quebrando o quase monopólio
do PT, em favor de partidos mais de centro, como o PMDB, o PSDB e o PDT, sem alcançar,
todavia, os partidos mais conservadores, tradicionalmente à direita do leque partidário.
Para o nosso objetivo, interessa sinalizar que o desenvolvimento do
corporativismo sindical, somando-se a outros, irá contribuir para deformar em parte o
processo de construção institucional, particularmente por ocasião da elaboração da
nova constituição. Pressionados por diversas corporações, e das mais distintas
natureza, desde os sindicatos trabalhistas até a UDR, passando pelas Igrejas e
instituições jurídicas, a Carta Constitucional tentou a todos contentar, inexistindo no
corpo constituinte qualquer hegemonia ou predomínio entre os atores presentes. O
corporativismo foi eficaz porque a esfera política já denotava o seu problema maior, o
esfacelamento.
Mais relevante, porém, é constatar outro movimento no transcurso dos
anos 80 no movimento trabalhista: o deslocamento do epicentro das greves do setor privado
ao público. Aos metalúrgicos da grande São Paulo, do início da década passada,
substituíram, em seus meados, os funcionários públicos, particularmente do setor de
educação e saúde. Grandes manifestações grevistas emergem como resposta à fórmula
simples, e falsa, de conter o déficit público, praticada pelos governos Figueiredo e
Sarney, submetendo os trabalhadores da função pública a um arrocho salarial. Sem
organização sindical e prática de greve, mas revestidos de um forte sentimento
corporativista, o resultado não foi outro que contribuir para o enfraquecimento do Estado
como fornecedor de serviços e bens públicos, sem alterar radicalmente sua situação
profissional.
Com a degradação da função pública, agravou-se a crise do Estado,
pois a possibilidade de resposta deste diminuiu enquanto o desperdício aumentou, e a
imagem, junto à população, assumiu contornos gradativamente mais negativos. Assim, a
crise do Estado se alimenta não apenas da perda de recursos, decorrente da crise
econômica, não apenas da perda de sua capacidade de tributação, decorrente do
descrédito político de seus sucessivos governos sem suficiente autoridade (Figueiredo e
Sarney), mas também do próprio movimento dos funcionários públicos, em razão de seus
interesses particulares.
O grande esforço realizado pela categoria de mudar sua imagem de
"barnabés" para "tecnocratas", realizada ao longo da década de 1970,
desfaz-se, em parte, nas sucessivas e inexplicáveis, aos olhos da opinião pública,
greves; fenômeno do qual irá aproveitar-se Collor de Mello em sua candidatura
presidencial imputando aos funcionários públicos uma responsabilidade pela crise bem
além do que qualquer respaldo verídico permitiria.
A tentativa desse presidente de reformar o Estado, por meio de um
conjunto de medidas provisórias decretadas em 1990, apenas se soma, embora por razões
diferentes, ao movimento anterior, aumentando o enfraquecimento do Estado. Sob o duplo
argumento de diminuir a sua presença na estrutura produtiva do país e de racionalizar
seu funcionamento, adota-se um "modelo burocrático-mecanicista de reforma"
(Cavalcanti e Vellela, 1991), com a padronização das estruturas ministeriais, uso de
hierarquias como mecanismo-chave de coordenação e fortalecimento da chamada
administração-meio. A racionalização torna-se inócua, enquanto a desestatização
balanceia sob o programa discutível de privatização, sempre sujeito a refluxos e
descaminhos decorrentes da falta de base política e social do governo (Schneider, 1992).
Não podendo manifestar-se por greve, em face da ameaça constante de
demissão ou "disponibilidade", os funcionários públicos adotam, como
estratégia de sobrevivência, a desobediência passiva ou a fuga ao privado. Os serviços
públicos caem, ainda mais, de qualidade, aumentando, no sentido inverso, a insatisfação
de seus usuários.
Outro foi o caminho do movimento de bairro, embora com resultado quase
similar. A negociação com os poderes públicos, cuja descentralização promovida pela
nova Constituição aproxima-os das organizações de bairro, teve como "efeito
perverso" a institucionalização e burocratização do movimento com as
conseqüências conhecidas: perda simultânea de vigor das mobilizações e de
representatividade das organizações. Não se trata apenas do fato de que a prática da
negociação exige um outro tipo de líder (competente nos corredores e nas pequenas
conversações) e um outro tipo de mobilização (mais institucionalizada), e a
descentralização permite a imposição de controles mais burocráticos (Soares, 1993),
mas também de que a política pública adotada pelo governo Sarney estimula a
disseminação das associações de bairro, cada qual ganhando várias representações
(Nascimento e Bareira, 1993). Para ter acesso aos bens distribuídos pelo Estado, era
necessário estar inscrito em uma associação (obrigada, à inscrição no cartório e na
secretaria de ação social, à adoção de um estatuto, à observação de normas etc),
sem que as agências estatais perguntem sobre a sua diversidade e natureza, estimulando,
com essa prática, não apenas a sua proliferação como a sua apropriação para fins
escusos. As associações de bairro perdem seu caráter de organizações de luta e
reivindicação para tornarem-se organizações caritativas, sem enraizamento social e sem
capacidade de mobilização.
Contribui também, para o duplo fenômeno da perda de vigor e
representavidade das associações de bairro e suas correspondentes práticas sociais, a
percepção de que as reivindicações, mesmo quando satisfeitas, a médio prazo
tornavam-se nulas. Depois de alguns anos de luta, os habitantes dos bairros populares
observam que a escola, sem manutenção, degrada-se; o centro de saúde, sem médico, não
funciona...além do que, a inflação reduz seu reconhecidamente parco poder de compra
(Quiroga Fausto Neto, 1993). Sobretudo que as políticas sociais aplicadas pelo governo
Sarney foram, em sua maioria, suspensas, sem qualquer outro substituto, pelo governo
subseqüente.
Espanta aos conhecedores das mobilizações de bairro do final dos anos
70 e início de 80 o relativo silêncio dos pobres em face da desmontagem das políticas
sociais, particularmente de cunho assistencialista, realizada pelo governo Collor de Mello
no início de 1990. Qualquer explicação, mesmo simplesmente aproximativa, deverá
articular os efeitos da crise econômica e a fragilização das organizações e
mobilizações populares, em decorrência da burocratização sofrida no período Sarney.
Algo de novo, entretanto, parece estar se produzindo, com impactos diretos e indiretos
sobre os contornos que a situação social e política brasileira assumem hoje.
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a sociedade brasileira
conheceu uma forte mobilidade ascendente, sob o impulso de um claro movimento de
integração social. Os bolsões de pobreza absoluta, que correspondiam a cerca de 40% da
população em 1970, tinham sido reduzidos a 20% em 1980. Ao longo desta década, a
ausência de crescimento econômico e os altos índices inflacionários provocam não
apenas um aumento da concentração de renda, mas também um claro empobrecimento da
sociedade. Se os índices são quase os mesmos entre os dois anos extremos (1970/1990),
constatam-se, todavia, grandes diferenças. A pobreza absoluta de rural torna-se urbana e,
em seguida, metropolitana, penetrando mesmo a esfera do mundo do trabalho. Na população
de rua de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, hoje, encontram-se não apenas vadios e
desempregados ou trabalhadores do setor informal, mas também trabalhadores formalmente
registrados, portadores de uma carteira de trabalho e inscritos na seguridade social
(Nascimento, 1995).
Não apenas o Estado deixou de apresentar respostas às demandas e aos
anseios da sociedade, mas também o mercado. Se se somar a esses dois processos o
distanciamento da representação política de sua base (o que veremos a seguir) e o
enfraquecimento das organizações populares de quartier, pode-se argumentar sobre
a desmobilização dos pobres e, sobretudo, sobre o "algo de novo" que surge na
segunda metade dos anos 80 e não parou de se desenvolver desde então: a procura de
resposta fora do espaço público da política ou do espaço privado do mercado. Trata-se
do desenvolvimento de uma esfera social que se organiza à margem da lei, que denominamos,
em outros textos, de "socializações marginais". Em face do inócuo resultado
das mobilizações sociais, busca-se uma solução individual, em face da impossibilidade
de construí-la no espaço regulado, busca-se realizá-la na violência.
Aparentemente, a participação coletiva social tornou-se não apenas
custosa mas ineficiente. Uma socialização marginal se desenvolve, assim, aproveitando-se
sobretudo de um Estado crescentemente incompetente, não apenas no fornecimento de
serviços públicos, mas também no seu papel maior de garantir a segurança e a ordem
pública.
Pode-se, agora, formular a hipótese sobre a faceta social da crise
brasileira dos inícios dos anos 90: não apenas um refluxo ao privado por parte dos
cidadãos em face do alto custo de participação, não apenas um aumento da pobreza
absoluta, entravando a mobilidade social, e uma perda de vigor dos movimentos sociais,
retirando-se da cena dos construtores de uma alternativa nacional, mas sobretudo a
incapacidade atual dos atores sociais de assegurar um controle social e realizar uma
pressão real sobre as esferas da representação política e da decisão estatal. Em
outras palavras: o risco de um colapso do espaço regulado.
A FRAGMENTAÇÃO PARTIDÁRIA
Sem base social, a esfera da política tende a ganhar uma
"autonomia nefasta", agravando a complexidade da "transição
estrutural" e, sobretudo, tornando a passagem mais difícil. Além da freqüentemente
citada corrupção dos meios políticos, com aumentos salariais astronômicos dos
parlamentares (em meio a um empobrecimento geral da população), negociatas e mordomias,
que o "affaire Collor" elevou ao pódio da mídia, o fenômeno situa-se,
principalmente, na dinâmica própria da esfera política partidária (Nascimento, 1993).
Expressão da crise institucional, a legislação partidário-eleitoral
é extremamente liberal e contraditória. Se obriga o cidadão, para se candidatar ao
parlamento (em qualquer das instâncias: municipal, estadual, federal) a filiar-se a um
partido, não lhe faz qualquer outra exigência no caso de obter sucesso: o parlamentar
fala por si e responde apenas à sua consciência (e a seus financiadores). Ademais, a
criação de partidos políticos tem formalidades irrisórias, facilitando a sua
proliferação.
A existência de um amplo leque partidário só é problemática,
porém, quando um grande número de partidos galgam os postos da representação efetiva
e, sobretudo, nacional, o que, aliás, tem ocorrido ao longo de toda a década passada
(Lima Júnior, 1991). Tomando em consideração a Câmara dos Deputados, os partidos
políticos eleitos em 1982 eram apenas 5: PMDB (235), PMDB (200), PDT (23), PTB (13) e PT
(8). Em 1990, eles totalizam 18; tendo sido 12 nas eleições de 1986. As eleições de
1994 confirmam em parte a tendência histórica da década passada: 19 partidos
tiveram assento no Congresso Nacional.
A fragmentação tem sido, assim, a tendência maior do sistema
partidário. Há um outro aspecto ainda mais importante do que a presença dos partidos,
anteriormente considerada, na Câmara dos Deputados: a quantidade necessária para se
constituir uma maioria parlamentar, mecanismo indispensável da governabilidade. Enquanto
os resultados das eleições de 1982 exigiam dois partidos para constituir uma maioria na
Câmara dos Deputados, os das eleições de 1990 obrigavam que pelo menos 4 partidos se
aliassem (PMDB, PFL, PDS e PDT). Em 1994 este número foi confirmado.
O fenômeno assim apresentado, da fragmentação partidária, pode
conduzir o leitor a imaginar que são os próprios eleitores que assim o quiseram: a cada
eleição um número maior de partidos é eleito à Câmara dos Deputados. A
argumentação muda, porém, quando observada de perto. A análise do comportamento do
sistema partidário mostra como a fragmentação partidária é o resultado de um
dinamismo interno ao parlamento. Eleitos 5 partidos em 1982, eles são 15 às vésperas
das eleições de 1986; nessas, são eleitos apenas 12, mas o processo de cissiparidade se
mantém e eleva o número a 20, mas o eleitor os rebaixa a 18 nas eleições de 1990. Em
1992, já tinham voltado a 20, para serem 19 após as eleições de 1994. Ou seja, o
eleitorado apenas tem confirmado a dinâmica interna do sistema partidário, e com muita
moderação, tendendo a retê-la.
A "autonomia" da esfera da representação política tem
colocado problemas para o exercício da governabilidade. A ausência de uma força
hegemônica tem criado obstáculos à adoção de medidas que se articulem em uma
determinada direção. A hesitação parlamentar foi tão forte no processo constituinte,
que a Carta Constitucional tornou-se em grande parte inexeqüível. Seus cerca de 200
artigos que demandam uma regulamentação permanecem na mesma situação.
A precariedade de se obter uma maioria parlamentar, em situação tão
instável, levou os governos Sarney e Collor a negociações e mudanças freqüentes em
suas políticas, atribuindo ao primeiro a imagem de indecisão e ao segundo, a de
isolamento, sendo este fato em grande parte responsável por sua renúncia-impeachment
em 29 de dezembro de 1992. Dificuldades similares enfrentou o governo Itamar Franco.
Erguido ao poder em meio a uma crise político-institucional sem precedentes na história
republicana brasileira, com um apoio largamente majoritário na Câmara dos Deputados, o
antigo vice-presidente estava politicamente isolado passados não mais do que três meses.
Embora, aos poucos, tenha constituído uma nova maioria em 1994, porém frágil e
instável.
Algumas ocasiões têm sido perdidas nesse trajeto, particularmente
pelo PMDB, quando em 1986 ganhou, sozinho, a maioria do Congresso Nacional, ou seja, tanto
na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. Em parte, porém, o antigo partido da
resistência democrática cresceu por meio de um "transformismo perverso":
movimento inverso do que ocorreu com o Partido dos Moderados no processo de unificação
italiana no século passado. Seu poder de atração, ao invés de paralisar os atores
adversários, inibiu-lhe o poder de iniciativa, paralisando-o. O PMDB tornou-se um
"partido-ônibus", com vários motoristas, cada qual se substituindo na
condução para dirigi-lo em rumos diferentes, quando não antagônicos.
O corpo eleitoral puniu severamente a classe política por suas
indecisões e tentativas de "autonomização": a cada eleição, o Congresso
Nacional foi renovado em mais da metade de seus membros. Fenômeno que, repetido, teve
resultado relativamente inverso ao esperado, veio reforçar o comportamento depredatório
por parte considerável dos membros da esfera da política: cada parlamentar trata de
obter o máximo de resultado na primeira legislatura, pois a seguinte não é jamais
assegurada, e os "honestos" são igualados aos "corruptos". O rodízio
parlamentar é mais forte entre aqueles que têm base urbana e mais próxima da classe
média. Os que têm base rural ou fortes currais urbanos, particularmente nos setores
urbanos de periferia, sofrem menos esse risco.
Política e sociedade poucos encontros tiveram depois da derrota do
movimento "pró-eleições diretas" em 1984. Pois fenômeno similar veio a
ocorrer somente em 1992, por ocasião do movimento de repulsa a Collor de Mello.
(Nascimento, 1993). Ambos alimentados, evidentemente, por uma Imprensa que se tem
posicionado freqüentemente como um "quarto poder", nem sempre de forma
positivamente benéfica à estabilidade. Os rumos da sociedade política têm sido
relativamente distintos, acrescidos da recente instabilidade própria à esfera da
política, e contribuem para aumentar o refluxo ao privado e o surgimento de uma certa
apatia política que o referendo de 21 de abril de 1993 sobre o regime político, em parte
revelou com seus altos índices de abstenção, votos nulos e brancos.
O processo de ampliação da autonomia do Congresso Nacional em
relação aos eleitores é evidente, com repercussões negativas para sua imagem e para o
processo democrático. Reflete-se, por exemplo, no abuso do poder de definir seus gastos e
salários com introdução de verdadeiras prebendas no Orçamento Federal (16.000 dólares
para tratamento dentário de cada deputado) e aumentos salariais astronômicos (cerca de 8
mil dólares de salário direto) em 1994, no momento em que, salvo os mais pobres, todos
perdem poder aquisitivo com a introdução do Plano Real em meados daquele ano.
Procedimentos que se têm confrontado com o Poder Judiciário (anulando alguns dos
desmandos salariais) e sobretudo com os militares.
A imagem da classe política entra em erosão aguda no início dos anos
90, apesar de uma reabilitação momentânea entre agosto e dezembro de 1992, com o impeachment
de Collor de Mello.
A instabilidade administrativa, por sua vez, não é apanágio do
governo Sarney, mantendo-se nos governos seguintes de Collor de Mello (1990/1992) e Itamar
Franco (1992/1994). Medidas tomadas por esses dois governantes agravaram o quadro. Ambos
assumiram a presidência por meio de reformas administrativas que redundaram em extinção
e fusão de órgãos públicos, cujos resultados mais significativos contribuíram, no
final, para aumentar a degradação do aparelho de Estado, desde os órgãos afetos à
política econômica até aqueles que dizem respeito à defesa nacional e segurança
pública. Instabilidade administrativa que repercute, com ênfase, na condução da
economia do país, que constitui pesada herança a ser enfrentada pelo governo
recém-eleito de Fernando Henrique Cardoso.
As privatizações, é bom registrar, não se fazem apenas na esteira
de um processo de decisão difícil, por instabilidades próprias à composição de
forças do governo, mas também por reações nacionalistas no interior da sociedade
brasileira. Tanto políticos da velha estirpe, como Brizola e Arraes, quanto militares da
velha tradição articulam-se e manifestam-se reativamente. Uns temerosos da penetração
do capitalismo estrangeiro, outros receosos da perda de soberania nacional. Choques que
repercutem nos trabalhos do atual Congresso.
As eleições previstas para 1994 contemplaram, ademais da Presidência
da República, a Câmara dos Deputados, dois terços do Senado, os governos estaduais e as
Assembléias Legislativas dos 27 estados brasileiros, incluindo a capital federal. Dela
emergiram uma presidência de largo apoio popular, pois vitoriosa ainda no primeiro turno
e um conjunto relativamente brilhante de governadores. Aparentemente, as condições de
estabilidade política aumentaram no Brasil, acompanhando os resultados de estabilização
da economia que se manifestam desde a introdução do Plano Real.
6. CENÁRIOS POLÍTICOS
Tomando em consideração a natureza da crise política e as
características gerais de seus principais atores, é possível desenhar alguns cenários
políticos para o país no ano 2000. Estes não devem ser tomados como categorias
empíricas, mas simplesmente como modelos referenciais que, elaborados em 1987, pela
primeira vez, sofreram alguns seminários de consistência em anos sucessivos.
Os atores, embora considerados em sua totalidade, não possuem o mesmo
peso; por essa razão, leva-se em conta especialmente o empresariado, o movimento sindical
e os movimentos sociais no espaço da sociedade civil. Os partidos políticos no espaço
da sociedade política e a tecnoburocracia civil e militar no espaço específico do
Estado.
Os cenários foram montados a partir do entendimento de que a crise
política atual é uma crise de hegemonia, restrita ao regime político, com traduções
visíveis no plano da governabilidade. Nesse sentido, pode-se afirmar que a antiga
aliança política perdeu suas condições de direção sobre o Estado e a sociedade e uma
nova aliança apenas começa a ser gestada, mantendo-se a situação de dificuldades na
definição de regras estáveis e críveis para a retomada do crescimento econômico.
Afinal, os resultados das eleições de 1994 apontam na direção da maior estabilidade
política e econômica, mas não asseguram que esta se consolide dada a natureza da
aliança no poder.
A matriz do cenário é formada por duas variáveis: hegemonia e
desenvolvimento. O lugar de cada uma delas significa que, na presente situação, a
política condiciona os rumos possíveis da economia.
Adotando-se a estratégia de proceder por bifurcação, é possível
propor duas alternativas imediatas:
a) a crise de hegemonia não se resolve;
b) a crise é superada pela construção de uma nova força
hegemônica.
No primeiro caso, o país não conhece a retomada do desenvolvimento,
no segundo caso a retomada ocorre. Porém, aqui também duas alternativas são possíveis:
a) a constituição de uma hegemonia conservadora, pela recomposição
das forças de direita e do centro;
b) a formação de um bloco hegemônico de largo espectro, sob a
hegemonia de um setor de centro-esquerda.
Com isso, afasta-se a possibilidade de uma hegemonia puramente de
esquerda na medida em que a mesma não se encontra inscrita como tendência na conjuntura
atual, sendo as condições institucionais absolutamente desfavoráveis. Assim como uma
hegemonia exclusivamente de direita e particularmente de extrema direita é igualmente
improvável.
Resultam, assim, três cenários possíveis:
CENÁRIO 1: PREDOMÍNIO DA INSTABILIDADE
Esse é o cenário menos provável. Uma alternativa que depende de
condicionantes conjunturais visíveis, caracterizando-se pela continuidade do
"equilíbrio instável" da crise de hegemonia e da relativa paralisia
governamental, manutenção da tendência de desconcentração do sistema partidário,
refluxo geral da sociedade civil (que não elimina o crescimento de conflitos e
manifestações radicais localizadas) e perda de terreno no cenário internacional.
Sempre de forma aproximada, não custa lembrar, esse cenário teria as
seguintes características:
a) Quanto ao Estado: mudanças freqüentes na composição
governamental e nas alianças de sustentação política; manutenção do formato da
governabilidade pelo "condomínio político"; sobrevivência da política
clientelista e fisiológica, desagregadora do sistema partidário; medidas governamentais
incongruentes e antropofágicas; paralisia dos processos de decisão ou instabilidades
internas marcantes; maior decadência dos setores modernos do aparelho de Estado,
incluindo significativa parte das empresas estatais.
O próprio crescimento da autonomia dos governadores viria a contribuir
para manter a paralisia governamental, tornando o sistema de pressões mais complexo.
Enfim, uma instabilidade governamental "perene", sem excluir predomínios
eventuais que, antes de estimular a superação da crise, impossibilitariam a construção
de mecanismos eficazes de sua superação;
b) No espaço da sociedade política: desconcentração do sistema
partidário com polarizações equilibradas e paralisantes ou mudanças constantes e
intermitentes de seu eixo central; ampliação do fosso aberto em relação à sociedade
civil, sem excluir eventuais momentos de aproximação, mas sempre temporários e breves;
predomínio das políticas particularistas, incluindo um provável crescimento da
estadualização ou regionalização dos partidos políticos, contribuindo para dificultar
as articulações duradouras no plano nacional, e assim, impossibilitando a
materialização de qualquer hegemonia estável. Nesse quadro, a aliança governamental
viria a perder terreno com o crescimento dos partidos à direita (PL, PPB, PFL, PTB) e à
esquerda (PT, PCB, PSB), mesmo que aglutinados, sem que disso resulte uma predominância
clara de qualquer tendência; o que não exclui polarizações passageiras, seja à
esquerda, seja à direita.
O sistema partidário, como centro da sociedade política, nesse
cenário, tenderia a conhecer uma instabilidade permanente, com reflexos manifestos na
ação do Parlamento;
c) No interior da sociedade civil: manutenção da tendência de
refluxo dos movimentos sociais com explosões fragmentadas, com quebra-quebras ou mesmo
radicalizações de setores minoritários e localizados, seja social, seja espacialmente
(como no caso dos conflitos rurais); desenvolvimento do comportamento de retorno à
privacidade, em face da ausência de regras claras de participação na "polis";
revigoramento das manifestações de "socializações marginais", sobretudo nos
bairros periféricos das grandes cidades; perda de organicidade dos movimentos mais
organizados; manifestações freqüentes e vigorosas de comportamentos sociais e
políticos de caráter corporativista, contribuindo para dificultar a montagem de um
projeto nacional consensual. Enfim, fortalecimento das tendências mais particularistas e
desagregadoras existentes atualmente no interior da sociedade civil.
Nessa alternativa, o país assistiria a uma desaceleração do
crescimento econômico à semelhança da década de 80 com um possível
sucateamento gradativo de parte de seu parque industrial, dilapidação de porção
considerável de sua força de trabalho especializada, fuga de capital, perda de
competitividade no plano internacional e, assim, inserção desfavorável na nova divisão
internacional do trabalho. Conseqüências que se conformarão gradativamente, insista-se,
em um processo de duas décadas, variando índices positivos e negativos de crescimento,
sem investimentos significativos, inclusive no nível infra-estrutural. Isso provocará
estrangulamentos cada vez maiores ao crescimento econômico, como um círculo vicioso que
o capital internacional não estaria disposto a romper, nem existiriam forças internas
competentes para fazê-lo.
Esse cenário poderia também se chamar de "vitória da
irracionalidade" ou "a derrota da nação". Sem promotores explícitos, mas
promovendo-se no espaço da impotência dos atores. A teoria dos efeitos perversos lhe dá
sustentação teórica. Todos os atores agem racionalmente, segundo os seus interesses
particulares, mas o resultado geral é negativo para o conjunto.
Sem qualquer sombra de dúvida, esse parece ser o pior cenário para a
esmagadora maioria dos atores sociais desde os empresários até os sindicatos
trabalhistas urbanos e rurais, passando pelos movimentos sociais propriamente urbanos ou
de fundo cultural pois elimina a estabilização de não importa qual ordem social,
conduz ao esfacelamento parcial do tecido social, particularmente em suas franjas mais
organizadas e, sobretudo, exclui a dimensão do crescimento econômico com um
empobrecimento palpável da maioria esmagadora da população, desde os segmentos de menor
renda até alguns de renda média, exceção feita a poucos grupos sociais, em sua
generalidade denominados de "especuladores". Embora seja impossível prever seu
tempo de duração, nada impede que uma tal situação perdure por mais uma década. Na
verdade, ela foi a tônica dominante entre 1980 e 1993.
Há evidentes reações a um cenário dessa natureza.
Em primeiro lugar, há uma forte reação em considerar tal cenário
possível. Em grande parte porque estamos todos imbuídos da grande vocação do país:
pelas suas riquezas naturais, dimensão da população, índices de crescimento
alcançado, existência de uma parcela significativa de mão-de-obra especializada,
estrutura produtiva, que se considera como a nona do mundo etc.
As resistências mais significativas, porém, não se encontram tanto
na ótica ideológica "o pior nunca acontece com a gente, mas sempre com o
vizinho" mas antes na existência de tendências e atores que se opõem a tal
quadro: a tradição conciliadora das elites brasileiras, o surgimento de organizações e
movimentos importantes nas classes dirigentes, o nível razoável de organização das
camadas médias e mesmo populares, são alguns entraves à montagem desse cenário.
Resistências que podem ser mais claramente percebidas no desenho dos cenários seguintes.
CENÁRIO 2: A CONSOLIDAÇÃO DOS DOIS BRASIS
Esse segundo cenário prevê a superação da crise numa perspectiva
conservadora. Nesse caso, assistir-se-ia ao estabelecimento de um governo estável, com
crises internas de pouca visibilidade; adoção de políticas públicas excludentes,
cristalizando e ampliando o leque da desigualdade social; encolhimento da sociedade
política, com polarização à direita do sistema partidário; exercícios de controle
sobre a sociedade civil, por mecanismos cooptativos e repressivos.
A restauração conservadora terá, aproximadamente, os seguintes
traços, segundo os espaços sociais considerados, para que venha a ganhar viabilidade:
a) No nível do Estado: composição de governos relativamente
estáveis, com aplicação de políticas restritivas; continuação do processo de
modernização do Estado, com privatização de alguns setores chave; interiorização no
Estado dos processos de decisão; políticas marcadamente excludentes a que se poderiam
somar políticas sociais assistencialistas compensatórias;
b) No interior da sociedade política: declínio da tendência de
desconcentração do sistema partidário, com sua polarização no centro-direita, em caso
de se manterem em vigor as formalidades democráticas; "encolhimento" relativo
da sociedade política, com quebra da tendência de sua articulação, embora não esteja
de todo afastada a possibilidade de que o Congresso venha a ter parte de seus poderes
reconstituídos; prevê-se um crescimento significativo dos partidos políticos à direita
ou "direitização" dos grandes partidos existentes, o que tem sido o movimento
eleitoral interno do PMDB entre 1978 e 1986 e que agora se manifestaria no PSDB;
esvaziamento relativo do papel de regulação de conflitos por parte da sociedade
política; aumento da crise de representatividade dos partidos políticos e, finalmente,
estabelecimento de novas relações com a sociedade civil (cooptação/repressão);
c) No espaço da sociedade civil: o exercício de seu controle por
parte do Estado poderá também tomar formas diversas nesse cenário, desde a repressão
pura e simples até o controle mais sofisticado, alimentando-se as tendências
corporativistas e as manifestações localizadas, sem chance de articulações maiores, ou
mesmo uma simbiose dos dois procedimentos; esvaziamento provável de alguns dos movimentos
sociais mais contestatórios e repressão sobre alguns deles, com apoio de larga parcela
da população não organizada ou organizada apenas em termos corporativistas. Para que o
controle se exerça na forma mais sofisticada, o Estado deverá adotar algumas políticas
sociais que possam neutralizar as contestações mais violentas, ou mais conseqüentes nos
seus desdobramentos possíveis; aumento do corporativismo dos setores médios urbanos;
maior capacidade de articulação dos interesses empresariais; surgimento ou ampliação
de movimentos sociais conservadores; manifestações caóticas e pontuais de protesto e
contestação, possibilitando ações repressivas intensas, porém esparsas no tempo e no
espaço; manipulação governamental dos meios de comunicação de massa (rádio e TV);
perda de representatividade e fragmentação das associações controladas pelas
esquerdas; "recolhimento ao privado", porém agora não pela inexistência de
normas claras na polis, mas pelos riscos de participação.
Em resumo, esse cenário conservador implica a adoção de políticas
de austeridade para a maioria da população; a maior abertura do país ao capital
estrangeiro; repressão seletiva aos setores mais contestatórios; continuidade do
processo de modernização do Estado; crescimento da desigualdade social e racial;
conquista de novos mercados no Terceiro Mundo e o estímulo ao desenvolvimento
tecnológico das indústrias de ponta, com poder de exportação. Ou seja, manutenção
relativa das características perversas do modelo econômico dominante após o período do
pós-guerra, com reformulações exigidas pelo esgotamento do processo de substituição
de importações e pelo desdobramento da crise internacional, com maior atenção aos
aspectos relativos à depredação do meio ambiente; políticas de retenção dos bolsões
de pobreza mais escandalosos.
Na verdade, a alternativa de uma saída conservadora da crise,
implicará um conjunto muito variável de políticas e uma ampla grade de possibilidades
concretas. Não há, a rigor, como para qualquer outro cenário, um único caminho, nem
formas singulares e/ou exclusivas. Aqui se enfatizou a variante "democrática"
no plano político e "desenvolvimentista" no plano econômico, ou seja, uma
hegemonia conservadora, liberal e modernizante em conformidade com a ascensão do
neoliberalismo.
Essa variante é mais provável pelas seguintes razões: situação da
instituição militar, pouco propícia a novas intervenções de ruptura; pressão
favorável da tecnoburocracia; importância política dos setores mais modernizantes do
empresariado; desejo crescente nas camadas médias do "estabelecimento da
ordem"; pouca organização das camadas populares; fragmentação e enfraquecimento
relativo dos partidos de esquerda e, finalmente, o interesse de setores do capital
internacional em quebrar a estrutura produtiva mantendo um certo mercado de consumo.
Uma questão importante relaciona-se ao tempo necessário para o
restabelecimento de uma hegemonia dessa natureza. Tanto poderá ocorrer a curto como a
médio prazo. O que significa que um cenário variante poderá articular tanto a
alternativa primeira, de não superação da crise, quanto a segunda, de recomposição
conservadora. As políticas repressivas e as possibilidades de manutenção das regras
formais do jogo democrático estão muito relacionadas ou condicionadas por essa questão
do tempo. Em outras palavras: aparentemente, as possibilidades de uma saída conservadora
de caráter formalmente democrático estarão na razão inversa do tempo de sua
concretização.
Evidentemente que um cenário dessa natureza supõe um crescimento
econômico maior que o demográfico, possibilitando a retomada da modernização seletiva
do aparelho produtivo do país e uma inserção bastante favorável, para certos setores,
na nova divisão internacional do trabalho.
As resistências, porém, serão variadas:
a) dos movimentos sociais populares nas grandes cidades, cujos
integrantes serão mais excluídos do acesso a bens e serviços urbanos;
b) dos movimentos sócio-culturais, como o ecológico e o feminino;
c) de alguns setores mais abertos do sindicalismo trabalhista;
d) de parte, ainda hoje importante, da Igreja Católica;
e) de segmentos expressivos da intelectualidade;
f) de parcela da opinião pública internacional; e talvez,
g) dos setores minoritários da tecnoburocracia e mesmo da
instituição militar.
Em princípio, as resistências serão maiores se as taxas de
crescimento não forem consideráveis, as políticas de saneamento econômico forem
drásticas e as ações repressivas, violentas, aumentando o fosso social e não
amordaçando as demandas e contestações decorrentes.
De outro ângulo: a viabilidade de implantação desse cenário está
na relação direta dos índices de crescimento, habilidade política e fatores
favoráveis no plano internacional.
CENÁRIO 3: O CRESCIMENTO DISTRIBUTIVISTA
A terceira alternativa aqui considerada encontra-se na possibilidade de
superação da crise política pela formação de um bloco hegemônico de largo espectro,
sob a direção dos segmentos mais modernizantes e democráticos do setor empresarial, com
participação de segmentos organizados tanto dos setores médios urbanos quanto dos
trabalhadores.
Pelo arranjo político que essa alternativa supõe, são de se esperar,
em sua viabilização, aproximadamente os seguintes traços nas diversas esferas sociais:
a) No nível do Estado: governos de ampla composição política, com
larga base de apoio social; congruência nas políticas econômicas e sociais adotadas;
retomada do processo de modernização do aparelho de Estado por meio de reformas no
sistema tributário e na administração, implicando algumas privatizações; as
políticas sociais articular-se-iam com certas reformas estruturais, possibilitando
mudanças gradativas na estrutura de renda; estabelecimento de políticas regionais mais
satisfatórias à "frente majoritária da periferia" (estados do Norte, Nordeste
e Centro-Oeste); políticas de continuidade da modernização da infra-estrutura;
b) No interior da sociedade política: ampliação do seu papel
regulador de conflitos; aumento da representatividade partidária; aproximação com a
sociedade civil; crescimento da participação política; refluxo da tendência de
polarização do sistema partidário, com eixo no centro; presença significativa dos
partidos de esquerda e direita, pressionando a "concertação" hegemônica no
centro, mas sem conseguir criar instabilidade de maior monta; diminuição do caráter
estadualista dos partidos políticos;
c) No espaço da sociedade civil: fortalecimento dos movimentos sociais
e do sindicalismo trabalhista menos corporativo; continuação do processo associativo,
com aumento de sua representatividade; manutenção de divisões marcantes no seio do
associativismo empresarial; diminuição das tendências corporativistas; refluxo das
"socializações marginais"; enfraquecimento dos movimentos sociais
conservadores; maior organicidade da sociedade civil, sobretudo nos setores médios com
algumas mudanças ideológicas significativas.
Reformas no aparelho de Estado (administrativa, previdenciária,
política), no sistema de tributação e na área financeira seriam implementadas
objetivando a retomada do crescimento econômico e contenção da inflação.
Negociações internacionais, por governos legitimados e asseguradores de continuidade,
seriam encetadas com o objetivo de não reduzir a drenagem dos recursos nacionais e
permitir a retomada dos investimentos externos com a conseqüente renovação do parque
industrial. Políticas de ciência e tecnologia ousadas seriam igualmente estabelecidas
para permitir ao país romper com o seu atual handicap tecnológico que a presente
década só fez aumentar.
Na realidade, essa alternativa, na sua melhor forma, implicaria um
grande esforço de criatividade e acordo dos partidos que venham a exprimir a força
social hegemônica, aproximando-se da aliança PSDB-PFL.
Políticas sociais consistentes seriam estabelecidas no combate à
pobreza, na renovação do sistema educacional, na recuperação da rede de saúde e na
geração de emprego e renda.
Uma inserção favorável na nova divisão internacional do trabalho
seria de se esperar, com a retomada do processo de modernização econômica, mantendo-se
ou ampliando-se sua competitividade no mercado externo.
Evidentemente, nesta última alternativa, não se espera
necessariamente que esse conjunto de políticas venha a ser adotado, mas pelo menos
algumas delas deverão ser implementadas com maior ou menor sucesso, na dependência da
consolidação dessa nova hegemonia. O que não exclui, por outro lado, tensões sociais,
sobretudo pelas demandas que se situarem no limite das possibilidades de resposta do
Estado, enfim, que venham a se constituir em ameaças a esse bloco reformista. Igualmente
não se podem excluir algumas misturas com políticas públicas do cenário anterior,
vista a presença importante de setores do capital no bloco hegemônico. Apenas a
condução política geral implicará a adoção de medidas e reformas que venham a
responder minimamente às demandas criadas pelos setores populares da nova sociedade
civil, possibilitar a retomada do crescimento econômico e, finalmente, a consolidação
de um regime democrático em moldes próximos àqueles desejados pelos setores organizados
e progressistas da sociedade.
A nova força hegemônica, que se situa intermediariamente entre o
populismo latino-americano e a social-democracia européia, ambos vigentes em seus
respectivos espaços, nas décadas 50/70 se aproxima de interesses de frações mais
democráticas do empresariado e de segmentos mais organizados dos trabalhadores
intelectuais e mesmo manuais nos ramos de ponta, nas cidades e no campo.
A viabilidade desse cenário parece residir nas dificuldades de
implementação de uma hegemonia conservadora, assim como na dos setores
"socializantes de esquerda". Conta também a seu favor o imperativo da lógica
do sistema capitalista reinante, as potencialidades de crescimento econômico do país e,
sobretudo, a dupla expectativa da racionalidade dos atores sociais (que evitaria a
continuidade do aprofundamento da crise) e de um cenário internacional não-catastrófico
para os países em vias de desenvolvimento. Ganharia, por outro lado, a concordância dos
atores centrais da esfera do Estado (militares e tecnoburocracia).
De toda forma, esse é o melhor cenário para ocorrer a consolidação
democrática no Brasil e que poderia ser denominado de "vitória da
racionalidade", pois a esmagadora maioria da população seria favorecida sem que as
bases do sistema econômico, e sua vinculação internacional, fossem rompidas. Riscos que
não estão ausentes na trajetória dos dois primeiros cenários; o primeiro porque cria
as condições para o "apartheid social" e, com este, o cesarismo; o
segundo porque funda as premissas para o desenvolvimento de conflitos comprometedores do
sistema como um todo, no interior de um apartheid social.
Evidentemente, essa "saída", como qualquer outra,
encontrará fortes resistências, no caso, particularmente das frações financeiras e
agrárias do capital, na medida em que ambas serão presenteadas com restrições a seus
poderes atuais. Por essa mesma razão, a aplicação de políticas nessas duas áreas
encontrarão maiores dificuldades. Resistência existirá também dos setores mais à
esquerda da sociedade: algumas parcelas do PT, tendências sindicais mais corporativas e
de correntes políticas mais à esquerda. E, possivelmente, de setores
"marginais", envolvidos em tráfico de drogas e contrabando, ou seja, o
"lumpemproletariado empresarial".
Esses cenários, aqui apresentados de forma extremamente resumida, e
apenas em sua expressão qualitativa, foram construídos há mais de oito anos. A maior
parte do tempo, o país navegou no interior do primeiro cenário. Após o Plano Real e o
resultado das eleições de 1994, o terceiro e o segundo cenários começaram a surgir
como probabilidade efetiva. Muitos acreditam que o PSDB, com Fernando Henrique Cardoso,
deverá caminhar mais para a esquerda na construção de políticas sociais substantivas.
Outros analistas julgam que a direitização crescente do governo é inexorável. Um e
outro argumento têm respaldo empírico. Conta com exemplos ilustrativos. É verdade,
também, que no início da década de 90 imaginou-se que se caminhava para o cenário dois
com a vitória do paladino do neoliberalismo.
De certa forma, encontramo-nos atualmente em um momento de inflexão
entre os cenários dois e três. A crise parece ser passível de superação, mas ainda
não está claro para que tipo de hegemonia estamos caminhando.
CONCLUSÃO
O padrão do relacionamento entre Estado e sociedade, do ponto de vista
mais geral, assumiu três formas centrais entre as décadas de 70 e 90.
Na primeira, o padrão de relacionamento define-se pela total
dissimetria: enquanto os empresários encontravam-se alojados no interior do Estado,
ditando de certa forma suas políticas, sobretudo a política econômica por meio da
tecnocracia, e obtendo os subsídios necessários ao seu crescimento, por vezes
contrariamente aos interesses majoritários do país, os movimentos populares
posicionavam-se, gradativamente, em total oposição, quando não se encontravam "de
costas para o Estado" (Evers, 1984). É o padrão reinante durante o regime
militar, particularmente na década de 70. As relações entre os poderes constitucionais
são regidas, com clara evidência, pelo Poder Executivo através dos militares no poder.
No âmbito da sociedade política, os partidos se organizam, mas muito
debilmente. Em geral, a instabilidade do início da transição, ainda em seu período de
liberalização, não permite grandes vôos nem maiores ousadias. Discute-se, projeta-se,
conjectura-se...e não mais. O MDB e a ARENA, que, em seguida, transformar-se-ão em PMDB
e PDS, continuam abraçando as diversas tendências partidárias, mesmo adversárias, em
seu interior.
No segundo padrão de relacionamento entre Estado e sociedade, a
dissimetria se desfaz numa figura marcada pela ambigüidade e indefinição de fronteiras.
É a marca da transição que se desenha nos finais dos anos 70 e assume sua plenitude nos
anos 80. Neste momento, enquanto os empresários procuram manter seu controle sobre os
"anéis burocráticos", porém agora com mais dificuldades, o movimento popular
vacila entre a rejeição e a composição com o Estado. Com o novo momento, os atores
têm de se reciclar, rever suas linguagens, refazer suas posturas, redefinir melhor seus
interesses, assim como seus aliados e adversários.
Para o movimento popular, a atitude de rejeição radical do período
anterior não tem mais sentido, sobretudo com o avanço da democratização na segunda
metade dos anos 80, mas a aproximação o ameaça com a cooptação e, em conseqüência,
a desfiguração e perda de representatividade. O movimento de bairro sofre esse dilema,
particularmente com o "Programa do Leite" do governo Sarney. Enquanto as
associações de bairro proliferam, sua representatividade e capacidade de mobilização
se desfazem. O movimento se retrai no emaranhado da institucionalização precoce, dando
lugar às "socializações marginais". Aos poucos, predomina o relacionamento da
reivindicação e do diálogo, mas sempre tenso para os atores.
O movimento operário não se exime dos dilemas provocados pelo
processo de democratização. As lideranças na oposição ganham os sindicatos,
consolidando as atitudes e posições de renovação, mas produzindo novas tensões e
contradições no seu interior. Durante a década de 80, o movimento sindical se fragmenta
em diversas centrais sindicais, enquanto o centro da luta se desloca dos eixos da
produção moderna para o interior do " Leviatã".
É interessante observar que a vanguarda do movimento, em sua
expressão mais visível, desloca-se dos metalúrgicos do ABC paulista para os servidores
públicos (sobretudo federais e estaduais), particularmente professores e médicos.
Por sua vez, o empresariado organiza-se para melhor ingressar na luta
política democrática, com sucessos e revezes. O grau de organização aumenta e torna-se
complexo, com expressões muito variadas segundo cada setor produtivo. No campo, por
exemplo, os grandes proprietários conseguem parar as tentativas de impulsionar a reforma
agrária com a adoção de um quadro jurídico adverso, por intermédio da UDR. Nos
setores industriais e de serviços, os lobbies organizados crescem, assim como os
mecanismos de influência junto aos poderes constitucionais. De toda forma, os
empresários entram na política, ocupam lugares significativos no interior do Parlamento
e mesmo ensaiam, às vezes sem sucesso, em relação ao Poder Executivo. É como se os
"anéis burocráticos" fossem insuficientes.
A sociedade política, finalmente, conheceu a ruptura com o
bipartidarismo anteriormente dominante e o leque partidário brasileiro começou a se
desenhar, principalmente na segunda metade dos anos 80. As cinco grandes tendências
desenhadas no começo daquela década apenas se firmaram em seu transcurso, embora com
mudanças de legendas: a) a direita conservadora (PDS); b) a direita liberal (PFL); c) o
centro tradicional (PMDB); d) o centro moderno (PSDB); e, finalmente, e) a esquerda
trabalhista (PT). E em torno de cada uma delas gravitam pequenas ou médias legendas sem
grandes expressões no quadro nacional, pois nem PTB e PDT parecem ter futuro muito
promissor. O primeiro, preso num fisiologismo pesado e, o outro, na dependência de um
líder carismático em descenso, após as derrotas nas eleições de 1989 quando era o
franco favorito.
Finalmente, o terceiro padrão no relacionamento Estado-sociedade
começa a constituir- se nos anos 90, após o interregno que foi o governo Collor de Mello
que, por seu estilo imperial, a todos impressionou e uniu contra si.
Tanto o movimento popular e trabalhista, quanto o empresariado
assentaram suas bases, institucionalizaram em grande parte seus movimentos, estabeleceram
suas associações, desenharam seus campos de disputa. Predomina, por isso mesmo, o
padrão de múltiplas relações entre Estado e sociedade. Tanto as parcerias quanto as
oposições podem se fazer presentes, na dependência do momento ou da questão em
disputa, sem que isso impeça o diálogo constante entre os diversos atores. Todos agora
têm consciência de que a possibilidade de ruptura não existe mais, que as regras se
estabelecem nos campos institucionalmente definidos e que o jogo de pressão e alianças
é legítimo. Oposição e cooperação passam a ser termos que tecem as relações sem
necessariamente haver exclusão entre elas. O Estado não é mais o "lugar do
mal", nem a sociedade o "lugar do bem". Traços autoritários e
democráticos tecem, igualmente, as relações sociais internas de ambos.
O leque partidário desenhado nos anos 80 em torno de cinco tendências
fortes foi confirmado ao longo da primeira metade da presente década, pois a tentativa de
constituir uma nova força política neoliberal falhou com a renúncia-impeachment de
Collor de Mello. Não se pode, porém, deixar de sinalizar algumas pequenas mudanças que
poderão vir a introduzir novidades no interior da sociedade política neste final de
século. Entre elas, vale a pena citar o fato de que o PDS transformou-se no PPB sem
conseguir expandir-se como almejava; o PFL, fragilizado pelas sucessivas derrotas
eleitorais no nível estadual (de 1986 a 1994), conseguiu manter-se como força expressiva
tanto no interior do Parlamento, quanto no interior da máquina administrativa federal; o
PMDB continuou seu movimento de enfraquecimento observado nos finais dos anos 80, mas sem
se esfacelar, como era temido por alguns antes das eleições de 1994; o PSDB fez um
movimento à direita para ganhar a presidência da República e continua esse movimento
com o objetivo de construir uma maioria estável no Parlamento; finalmente, o PT ingressa
em uma crise sem precedentes após a derrota eleitoral de 1994 para a presidência da
República, quando seu candidato surgiu como franco favorito. O desafio de transformar-se
de um partido reivindicativo em um partido propositivo continua insolúvel. Mas o
essencial é que o multipartidarismo firmou-se e a tendência de fragmentação política
arrefeceu.
Com isso o processo de consolidação democrática avançou, tanto no
nível da sociedade civil, quanto no da sociedade política e do Estado. Aparentemente, o
"transicionismo", ou a "síndrome da transição" parece estar em seus
finais, restando "apenas" a ameaça que constitui o aumento da desigualdade
social e o crescimento da pobreza.
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